O primeiro e o último homem
Por volta do século VIII antes da nossa era, Hesiodo concebeu a história como uma sucessão de eras na qual a humanidade decaía e era reconstruída, culminando a última dessas humanidades sucessivas na quinta geração dos homems, aqueles feitos de ferro (Works and Days 106-201). Séculos depois Stapledon (1930), ancorado nas idéias de Darwin e seguindo os passos de Gibbon, resolveu alterar o zoom e apontar suas lentes não para o passado visualizado pelo poeta grego, mas sim para o futuro, o que exigia adotar a privilegiada perspectiva do último homem. Para tanto, o filósofo e historiador Stapledon concebeu dezoito humanidades sucessivas cada uma passando por um período de surgimento, ascensão e queda, à semelhança de ondas físicas, cuja decomposição em círculos repete, de forma não totalmente repetida pela sua estrutura linear, o famoso mito do eterno retorno da mitologia hindu. Stapledon não era um poeta, de forma que a aridez dos seus escritos às vezes lembra a minúcia de um naturalista. Entretanto, em um sentido mais profundo, seus homens pássaros não deixam de ter um aspecto poético. Sua imaginação é, no mínimo, prodigiosa . O personagem principal de sua história é a humanidade, descrita em um gênero literário inclassificável. As desventuras desse ser multiforme do qual somos apenas uma parte infinitesimal são contadas como um fractal invertido dos homens de Hesíodo, repetindo em escala cósmica as mesmas venturas e desventuras que no passado Gibbon descreveu com um variado grau de homotecia.


