Novelário de Donga Novais -

    Autran Dourado

    Difel
    1976
    152 páginas
    5h 4m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    Sinopse: Incansável contador de histórias e dono de uma memória prodigiosa, seu Donga Novais gosta de brincar com as palavras, assim como seu criador, Autran Dourado. E é com elas que arma e desarma as aventuras e desventuras de Duas Pontes, tendo-as como gancho para compensar uma insônia de muitos anos. O personagem principal não sai da janela e de lá controla a vida dos habitantes da cidadezinha mítica do interior de Minas Gerais, que já serviu de cenário para outros romances do autor. Mais que isso, ele vê bem além do presente, já que tudo nele é simultâneo. Conversa com os mortos com a mesma familiaridade que dialoga com seus vizinhos. Narra as conquistas da bela e faceira Lelena, por quem os homens da cidade — incluindo o próprio Donga — suspiram. "Novelário de Donga Novais" é uma declaração de amor de Autran Dourado à linguagem, sua obsessão formal ao estilo, mas cuidando para que isso não se transforme em um obstáculo entre autor e leitor. Longe disso. O texto flui agradável como a prosa e os ditos do contador de histórias Donga Novais. São casos cheios de vida, amor e secretos desejos. A galeria de personagens que desfilam pela janela de seu Donga é ontológica. Temos o Dr. Viriato, médico de fala cheia de erres e esses, sutil e metafórico; o nortista Ananias Desidério, causídico e casuísta; o Dr. Saturnino Bezerra, um advogado de "altas sabenças e vernáculo supimpa", autor do soneto A uma diva em botão (para Lelena, é claro); o professor Maldonado do Amaral, de autoridade e inteligência incontestáveis, figura sábia e latinista; o milionário Alexandre Campari, faminto de ouro e poder; o sapateiro Giuseppe Fuoco, anarquista, socialista, comunista e carbonário; Neca e Gérson, os jovens que se revezam nos favores da morena janeleira; o marido Lalau, com sua espingarda Hunt de três canos longos, pronto para vingar sua honra. E muitos outros. Todos ensandecidos pela brejeirice da principal personagem feminina. Toda essa ‘gente’ revela, através de símbolos e imagens, o realismo simbólico de Autran Dourado, em que cada palavra é uma conquista. A presente narrativa é a representação mais perfeita dessa poética do romance, marca registrada do autor.

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    Osvaldo Arthur Menezes Vieira04/03/2023Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    A galinha sempre se ajeita no engradado.

    Autran Dourado (1926-2012) é mais um daqueles fantásticos escritores brasileiros a serem redescobertos pelo público leitor. Dele, já tive o prazer de ler “A barca dos homens”, “O risco do bordado”, “Uma vida em segredo” e, agora, “Novelário de Donga Novais” – uma das obras que elegi para meu desafio dos 50 livros para ler antes dos 50 anos. Seu Donga é um ancião muito sábio ao qual os moradores de Duas Pontes, cidadezinha das Minas Gerais, recorrem na expectativa de verem suas dúvidas e questões resolvidas. Conhecido por seus conselhos infalíveis, dados de forma proverbial, e respeitado por todos, o homem acumula uma legião de admiradores – sedentos por sua consideração. Sua casa, nesse sentido, se configura para aquele povo uma espécie de Oráculo de Delfos, um templo de cuja janela Donga Novais contempla e interpreta o mundo. Nas vizinhanças do velhinho e de Dona Mirtes, sua senhora, vive a filha de Seu Felisberto, a sedutora Lelena, dona de uma beleza estonteante e arrebatadora. De alma janeleira, a jovem será responsável pelo desatino de muitos homens, principalmente de Lalau, com quem acaba se casando. Não pairam dúvidas. Não é caso de coincidência. Lelena é a nossa mais bela versão de Helena de Troia; e Lalau, um rabisco de Menelau, o rei espartano. Desde o começo da obra, já sabemos que Seu Donga não mais está entre nós; seus contemporâneos são aqueles que, saudosos, se ocupam em não deixar morrer o legado do velho amigo, detentor que foi de uma prodigiosa e inexplicável memória. O que lemos, num texto repleto de humor na maior parte das vezes, trata-se de uma verdadeira ode que Autran compôs como forma de exaltar a sabedoria popular e a oralidade, os contadores de causos. E o fez, conforme nos entrega o narrador, porque “Tem sempre um materialista dos infernos pra atrapalhar a poesia da vida, reduzir a beleza das coisas, desfazer o mistério, a névoa luminosa que a gente vivia. Quanto mais mistério, quanto mais sublime, melhor”. A linguagem que o autor emprega, com sintaxe e vocabulários característicos, é bálsamo aos amantes da nossa literatura e da língua portuguesa. Uma singeleza capaz de deleitar e de instruir quem não vê como ousadia ou atrevimento gostar de ler. Como dizia Seu Donga, a “galinha sempre se ajeita no engradado”.

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