Publicada originalmente em Doom Patrol (1987) n° 19-22/1989 - DC Comics A equipe está esfacelada: Celsius morreu, Rhea Jones está em coma, o Homem-Negativo perdeu seus poderes e o Homem-Robô amarga seus dias num manicômio. O Dr. Will Magnus faz-lhe uma visita e lhe apresenta Crazy Jane, uma jovem vítima de abuso que desenvolveu mais de 60 personalidades diferentes, cada uma com superpoderes. É quando bizarros eventos começam a acontecer e a Patrulha é novamente necessária.
Patrulha do Destino (DC Vertigo) - Saindo dos Escombros
Grant Morrison, Richard Case
Edições (1)
Ver maisA minissérie Patrulha do Destino: Saindo dos Escombros, publicada no Brasil em duas edições, é uma das obras mais marcantes do selo Vertigo/DC Comics, trazendo ao público brasileiro a fase revolucionária escrita por Grant Morrison com arte de Richard Case. Lançada originalmente no final da década de 1980, essa história chegou ao país traduzida como Saindo dos Escombros, apresentando um grupo de heróis completamente diferentes do padrão dos quadrinhos tradicionais. Em vez de figuras perfeitas e idealizadas, o leitor encontra personagens quebrados, traumatizados e marginalizados, refletindo um mundo em ruínas — tanto física quanto emocionalmente. O enredo se inicia após a dissolução da antiga Patrulha do Destino. O cientista Niles Caulder, conhecido como “o Chefe”, tenta reconstruir a equipe a partir do que restou dela. Um dos sobreviventes é Cliff Steele, o Homem-Robô, que teve o cérebro preservado após um acidente e agora vive aprisionado em uma carcaça mecânica, lidando com a perda da própria humanidade. Surge também Crazy Jane, uma mulher diagnosticada com transtorno dissociativo de identidade, possuindo múltiplas personalidades — e cada uma delas manifesta um poder diferente. Outro integrante é Rebis, uma fusão de homem, mulher e energia negativa, um ser andrógino e simbólico que representa a superação das barreiras entre gênero e identidade. Desde o primeiro capítulo, a narrativa brasileira transmite bem o tom surreal e provocador da obra original. O título Saindo dos Escombros não é apenas literal, mas metafórico: cada personagem tenta se reconstruir após algum tipo de destruição — física, emocional ou existencial. Morrison cria, e a tradução preserva, uma história sobre seres que vivem à margem da normalidade, tentando compreender o que significa ser humano em meio ao caos. A Patrulha do Destino não é uma equipe de heróis convencionais; eles não lutam por fama ou glória, mas para sobreviver a si mesmos e a um mundo que os rejeita. O roteiro combina elementos de ficção científica, filosofia e horror psicológico, algo incomum nos quadrinhos de super-heróis da época. As missões da nova Patrulha do Destino são metáforas para distúrbios mentais e dilemas existenciais. Em um dos momentos mais simbólicos, os personagens enfrentam uma ameaça que representa a própria destruição da realidade — um inimigo que dissolve o sentido das coisas, fazendo o mundo perder a lógica. Essa abordagem, trazida de forma poética e perturbadora, é um dos grandes méritos da edição brasileira, que consegue manter o impacto do texto original sem perder sua complexidade. A tradução, publicada em formato americano por editoras como Abril Jovem e mais tarde reeditada por outras casas, faz um trabalho admirável ao preservar o estilo denso e experimental de Morrison. Expressões filosóficas, diálogos fragmentados e metáforas visuais são mantidos com fidelidade, exigindo do leitor uma leitura atenta. Não se trata de um gibi para distração rápida, mas de uma obra que provoca e instiga. A cada página, o leitor é desafiado a refletir sobre conceitos como normalidade, loucura, corpo e identidade. Outro ponto de destaque está na arte de Richard Case, que dá vida a um universo caótico e estranho, mas coerente dentro da lógica surreal proposta por Morrison. Seus traços transmitem desconforto e inquietação, traduzindo visualmente a sensação de fragmentação que domina a narrativa. No Brasil, a edição impressa manteve a atmosfera sombria e experimental da arte original, com cores e sombras que reforçam a sensação de instabilidade. Cada quadro parece oscilar entre o real e o imaginário, como se o mundo da Patrulha existisse nas frestas da sanidade. A obra também se destaca pelo simbolismo. O título Saindo dos Escombros reflete tanto o renascimento da equipe quanto a tentativa de reconstruir a própria ideia de heroísmo. A Patrulha do Destino é formada por pessoas que a sociedade classificaria como “defeituosas”, mas que encontram força justamente em suas imperfeições. Morrison — e a edição brasileira reforça isso — propõe que a verdadeira humanidade está nas falhas, na vulnerabilidade e na aceitação da diferença. É uma visão que dialoga profundamente com o leitor contemporâneo, acostumado a um mundo fragmentado, incerto e desigual. No contexto dos quadrinhos publicados no Brasil nos anos 1990, Patrulha do Destino: Saindo dos Escombros representou uma inovação estética e narrativa. Enquanto a maioria das HQs de super-heróis seguiam fórmulas previsíveis, essa minissérie apresentava um tom mais adulto, reflexivo e até filosófico. Sua publicação contribuiu para popularizar, entre os leitores brasileiros, o estilo “Vertigo” — uma linha de histórias que misturavam o fantástico e o psicológico, voltadas para um público mais maduro. Dessa forma, a chegada dessa edição ao Brasil teve impacto não apenas como entretenimento, mas como referência de um novo tipo de narrativa nos quadrinhos. A leitura, no entanto, não é fácil. Morrison desafia a linearidade e quebra as convenções narrativas, criando passagens ambíguas e diálogos enigmáticos. É possível que parte do público brasileiro tenha estranhado o tom introspectivo e o simbolismo pesado. Porém, é justamente essa estranheza que torna a obra memorável. Em um meio dominado por histórias de ação simples, Saindo dos Escombros se destaca por ser densa, inteligente e profundamente humana. No plano temático, o quadrinho aborda questões como a relação entre corpo e mente, o trauma, a marginalização e o medo da diferença. Cada personagem encarna um tipo de dor e de transformação: Cliff Steele sofre por não ter mais corpo humano; Crazy Jane representa a multiplicidade da mente e o desafio de conviver com o próprio caos; Rebis questiona as fronteiras entre masculino e feminino, vida e morte, matéria e espírito. Todos estão, de alguma forma, tentando reconstruir-se após uma grande queda — exatamente como o título sugere. O leitor brasileiro que se aproxima de Patrulha do Destino: Saindo dos Escombros encontra uma HQ que vai além do entretenimento. É uma reflexão sobre o que resta de nós quando tudo desaba, sobre a capacidade de reinventar-se em meio ao colapso. O mundo da Patrulha é um espelho distorcido da sociedade moderna, em que a busca pela normalidade se torna uma prisão e a loucura talvez seja a única forma de liberdade. Em termos críticos, a edição brasileira é uma das melhores traduções do espírito da Vertigo dos anos 1990: ousada, sombria, poética e complexa. A obra pode ser lida tanto como uma narrativa de super-heróis quanto como uma metáfora sobre a condição humana. Morrison e Case criam uma história que mistura o fantástico e o filosófico, o grotesco e o belo, o racional e o absurdo. É uma HQ que questiona o próprio conceito de heroísmo e redefine o papel dos “monstros” — não como ameaças, mas como espelhos de nossa própria humanidade. Em síntese, Patrulha do Destino: Saindo dos Escombros é uma obra essencial para quem deseja compreender a maturidade artística e intelectual que os quadrinhos alcançaram no Brasil a partir dos anos 1990. Sua publicação representou um marco para leitores e colecionadores, mostrando que os quadrinhos podem ser, sim, literatura. Mais do que uma história sobre heróis estranhos, é uma meditação sobre reconstrução, identidade e aceitação. Entre os escombros da loucura e da dor, a Patrulha do Destino ergue algo que poucos heróis conseguem: a coragem de existir como se é.
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