“Um obscuro encanto” é, antes de tudo, uma obra de folego. Durante sua leitura, atravessamos pelo menos 2.000 anos de história, desde o nascedouro do cristianismo. Mas, por suas raízes gregas, egípcias e fenícias do gnosticismo, o autor retorna a esses tempos longínquos, passeando conosco pelo maniqueísmo, zoroastrismo, a cabala judaica e as antigas religiões de mistério. Tudo para mostrar que o gnosticismo, embora tenha tomado corpo ao lado do cristianismo, teve suas ideias e temas tratados anteriormente em várias épocas e lugares. O objetivo do autor, Claudio Willer, é mostrar os desdobramentos do gnosticismo na literatura, especialmente na literatura moderna. Para alcançar esse propósito, ele precisa definir o que seja gnosticismo, gnose e suas características para que, então, possamos perceber sua presença na literatura.
Inevitável, da maneira que o autor trabalha, não concluir que, antes mesmo de tudo isso que foi tratado no livro como origem do gnosticismo, o jardim do Éden é o lugar primordial para o nascimento dessa cosmovisão. Até mesmo, muitos poetas e escritores gnósticos se identificaram na história como “descendentes de Caim”. Se for assim, poderíamos reduzir tudo o que há no mundo a apenas dois grupos, como a própria Bíblia o faz no livro das Gênesis: os filhos de Set e os filhos de Caim. O fato de Deus ter revelado que a desobediência traria morte, caso ocorresse, tem como contraponto a proposta satânica de um conhecimento não pelo viés da revelação (o que exige fé), mas pelo conhecimento. A proposta da serpente é a de um conhecimento, assim, é de se entender que, para o gnosticismo, não é o pecado o mal da humanidade, mas a ignorância. Satanás continua, diariamente, propondo que troquemos a revelação pelo conhecimento que ele tem a nos dar. Portanto, até hoje, teríamos a luta entre a cosmovisão revelada na Palavra e a cosmovisão gnóstica, presente em maior ou menor grau nas demais religiões, até mesmo nas cristãs. Para compreendermos melhor isso, passemos à caracterização do corpo gnóstico.
Partindo da premissa que Cristianismo e gnosticismo nasceram do mesmo solo judaico, passemos a ver o que compõe, de modo geral, o gnosticismo:
1) O “EU” fechado — característica dos autores gnósticos é seu individualismo, fechado para o outro, voltado, meramente, ao auto-conhecimento;
2) A reintegração com o divino (fusão) — o caminho da gnose é levar o adepto a uma fusão com o divino, o gnosticismo não é voltado para este mundo;
3) A salvação da ignorância — como já foi dito, não há no gnosticismo o conceito de pecado e queda como apresentado pela Bíblia. Na verdade, “pecado” é falta de conhecimento e “queda” é atribuída a Deus, Deus errou, por isso o mundo é mal (em geral, há a presença de um demiurgo);
4) O conhecimento é subjetivo com exclusão do objeto — é a descoberta de si mesmo a gnose;
5) Não há separação entre o sujeito e o objeto — o individualismo gnóstico leva a uma fusão com tudo (obviamente, estamos falando de um solipsismo);
6) Visão mítica do mundo — não há interesse com a história e com o aqui e agora. As escrituras gnósticas são desconectadas do espaço e do tempo. A realidade é mítica e deve ser buscada no conhecimento dos arquétipos;
7) Há a presença nos escritos do registro de glossolalias;
8) É um movimento elitista;
9) Iniciático, sincrético e heterodoxo;
10) Expressa uma cosmovisão dualista, eterna luta do bem contra o mal.