A edição parece revelar bastante sobre o livro. A capa, de um dourado fosco, e a contracapa bege parecem de um valor que não quer parecer facilmente convidativo ao leitor, lembrando as próprias páginas amareladas pelo tempo (é um livro esgotado, comprei em um sebo). O livro é alto e estreito, o que parece se adequar aos versos curtos de muitos dos poetas, que fazem com que os poemas ganhem ainda mais verticalidade. Além disso, o livro se torna mais grosso e o miolo apresenta certa resistência ao ser aberto pelas mãos. De modo semelhante são muitos os poemas, que na grande maioria não procuram seduzir pela facilidade das imagens, mas pela dificuldade das construções que buscam certas experimentações, certo senso de autonomia e referências a autores da tradição artística e de culturas diversas que não quer facilitar para o leitor desavisado.
De modo geral, é um livro que me despertou mais interesse do que gosto. Duas questões saltaram aos meus olhos: como a autonomia literária desses poemas poderiam ser relacionadas à autonomização do campo literário deixada pelos anos pós-ditadura e como muitos dos poemas tematizam certo isolamento e estreitamento de perspectivas do eu lírico - muitos poemas são restritos ao espaço da casa/apartamento - o que talvez remeta tanto a transformações da sociabilidade do "Brasil entre muros" como também ao lugar que essa poesia mais autônoma ocupa.
Quanto a intertextualidades marcantes para pensar esses autores, há muito das vanguardas, da poesia concreta e da poesia marginal (Leminski em especial), além da poesia beatnik. Admiro o fato de terem dedicado uma seção do livro a autores que à época ainda não haviam publicado livros próprios, mostrando interesse dos organizadores não só na poesia escrita até então mas também na poesia por vir.
Admiro também o fato de ser uma antologia que parece se organizar mais por um critério de qualidade/gosto do que por ser um panorama que tende à neutralidade. Minha impressão enquanto leitor era de que os organizadores Claudio Daniel e Frederico Barbosa se colocaram enquanto leitores em relação aos poemas para selecioná-los.
Dos 46 poetas que compõem a antologia, gostei especialmente de 6 deles:
- André Dick (achei impecável misturando senso de construção e senbilidade nos poemas);
- Arnaldo Antunes (sempre me pareceu jogar com a linguagem evitando ser hermético, o que lembra algumas das canções que ele fez com os Titãs);
- Eduardo Sterzi (tem também ótimo senso de construção, que às vezes parece um pouco artificial, mas que consegue alcançar imagens bem precisas);
- Fabrício Marques (outro que também me encantou pelo senso de construção mas sem matar a vida do poema);
- Gauco Mattoso (consegue misturar erudição e derrisão como ninguém), Ricardo Aleixo (gostei bastante de alguns dos seus poemas dedicados a orixás);
- Micheliny Verunschk (pela dicção elevada que me lembrou um pouco de Hilda Hilst).
Para além desses poetas, gostei bastante de diversos poemas isolados de outros escritores.
Dito tudo isso, no geral, não gostei da maioria dos poemas que compõem a antologia. Se tivesse que explicar esse não gostar, talvez seja por eu ter dificuldade de gostar dos poetas que são herméticos demais ou que, influenciados pelo concretismo e pela poesia visual, fazem poemas cuja graça parece muito restrita ao próprio trabalho com a construção do poema, sem uma preocupação mais clara e direta com a expressão de sentimentos ou com a reflexão social.