A trilogia medieval de Reinaldo Santos Neves, que inclui o romance A Crônica de Malemort, por ele próprio traduzido para o inglês como The Alfield Manuscript e, em seguida, retraduzido para o português como A Folha de Hera, resulta numa coleção de textos que intriga o leitor pelos recursos literários utilizados, em especial a técnica do manuscrito reencontrado e o uso, em especial neste romance bilíngüe, do paratexto fictício, levando o leitor (como bem o fez Jorge Luis Borges) a questionar o que é fato, o que é invenção, qual a relação entre história e ficção.
A metodologia adotada representa uma inusitada originalidade: com um enredo totalmente seu, RSN exercitou-se na elaboração de um texto que, igual a uma colcha de retalhos, foi criado com trechos de outros textos autênticos do período revisitado.
A evocação de Pierre Menard se faz aqui imperiosa. Mas se, em Menard, encontramos o obstinado percurso de um escritor que tenta reviver no tempo presente um modo de criar do passado, na trilogia medieval de RSN percebemos o desejo de criar um simulacro mais forte que o “real”, através de um texto que se quer impor como tradução de um original que não existe.
Assim, a trilogia de RSN demonstra, com excelência, pertencer à biblioteca de Borges.A diferença está na singularidade do desenho, da textura, que o autor criou ao juntar diferentes fragmentos para compor um enredo ainda não incluído no espelho que reflete a grande biblioteca, ou seja, a idéia que Borges tão freqüentemente recupera de que o mundo é espelho do jogo. E o mundo, somos induzidos a desconfiar, é a biblioteca de Babel.