Céus! Por onde começo? Começo dizendo que é nauseante e perturbador ou que é fascinante e impecável? Começo pela crueldade exasperante ou pelo ritmo frenético? Não sei, só sei que nada, absolutamente nada, que eu escreva fará justiça a essa narrativa.
Estava eu na livraria passando a vista (e as mãos) nas lombadas dos livros quando esse título me chamou atenção. Claro, uma amante da música clássica logo se interessa por algo como A Pianista. Então, a livreira, muito boa, diga-se de passagem, aproximou-se e começou a falar maravilhas desse livro. A adaptação para o cinema foi premiada no Festival de Cannes e a escritora (e pianista), a austríaca Elfriede Jelinek, ganhou o Nobel de 2004. Eu não precisava de mais atrativos para levá-lo, mas até então achava que se tratava de uma história bonita e emocionante. É o oposto, lhes digo! E ainda assim, magnífica!
A Pianista (ou A professora de Piano, tradução do título original) fala de uma relação destrutiva e obsessiva entre mãe e filha. Erika Kohut, a filha, é uma professora de piano de meia idade que ainda vive na asa da mãe, que a comanda sob rédeas curtíssimas. A mãe, que a criou sozinha, forçou-lhe o sonho de ser uma pianista de sucesso. Na infância, enquanto as outras crianças brincavam, Erika estudava até calejar.
Para Erika não há privacidade, não há hora de lazer e tampouco pode gastar seu salário como deseja. Mãe e filha dividem a mesma cama, o quarto não tem tranca e as mãos de Erika estão sempre sob o olhar vigilante da mãe para que ela permaneça imaculada. Se Erika sai da linha, apanha. E no meio dessa confusão, eis que surge o jovem aluno Klemmer, por quem a professora se apaixona. Será sua salvação ou sua completa destruição?
Qual o limite de uma mãe? Até que ponto é saudável repassar seus sonhos frustrados para os ombros de uma filha? Logo no início do livro conseguimos relacionar essas duas personagens fictícias com outras tantas da vida real. A autora alfineta essa dependência (ou interdependência), mais comum do que imaginamos, de mães que vivem exclusivamente em função de seus filhos e que, quando estes saem do casulo, entram em desespero ou depressão, como se a sua vida já não fizesse sentido.
A sra. Kohut não quer que a filha se relacione com ninguém, para que sejam sempre as duas, sua televisão e nada mais, e para que o salário seja poupado e assim, um dia, possam ter um apartamento melhor. Erika admira as vitrines e compra vestidos sem que sua mãe saiba, mas não os veste. Que comportamento podemos esperar de uma relação tão doentia? Erika é fria e seca de tanto desejo repreendido. Sempre que pode, escapole. Consome pornografia barata e o voyerismo é seu escape, o que a leva a bairros sujos e parques escuros. Mas tem pressa, seu tempo é limitado, pois a sra. Kohut a espera todos os dias, sabe todos os seus horários, conhece sua rotina e seus alunos. Não dá brecha para erros.
Ela não sente prazer. Sente-se tão murcha e insensível que o sadomasoquismo e a autoflagelação é o que ainda pode lhe propiciar alguma sensação. E quando uma mulher assim se apaixona? Para Erika a relação de dominação e submissão é a única que conhece, a única sob a qual viveu todos esses anos. Um manda, outro obedece. Um falha, outro castiga. Mas e quando Klemmer percebe que a entrega não existe, que a submissão não é arbitrária, mas uma imposição com regras e limites estabelecidos por quem se diz submissa?
É assustador saber que a autora admite ter traços autobiográficos nesse livro. Há uma cena de autoflagelação chocante, dura e repulsiva, e é preciso estômago para seguir adiante. Aliás, há duas cenas assim, e me pergunto até que ponto são fictícias.
A autora critica um lado, o lado ruim, da extrema rigidez e disciplina austríaca em relação a música erudita. Nada nesse livro é visto a partir do lado positivo, devo salientar. Nada é romanceado. Tudo é feio, nada é bonito. Nem mesmo as interpretações das músicas de Bach, Brahms ou Schummann escapam. Não mostra o lado mágico, mas o mecânico e sem emoção. Apesar da forte crítica à sociedade vienense ser atemporal, deve-se ter em mente que o livro foi lançado há três décadas e que muito daquele conservadorismo exacerbado já se abrandou um pouco.
Mais do que o tema, a escrita é a alma desse livro. Uma narrativa impecável! Um narrador onisciente que, com destreza, consegue intercalar as vozes dos três personagens-chave sem precisar nem ao menos finalizar um parágrafo. A autora escreve de maneira brilhante em uma narrativa abarrotada de metáforas e analogias, em um ritmo eletrizante. A voracidade e agressividade de suas palavras consomem o leitor e é impossível não entrar naquele espiral alucinatório de sua mente.
Seus personagens são repulsivos e não causam simpatia nem piedade alguma. Quem me dera ter conhecimento suficiente no campo da psicologia para poder ter o deleite de analisar e interpretar essas mentes com mais profundidade.
Seria estranho recomendar um livro extremamente perturbador? Recomendo-o! Quem se arriscar na sua perversidade vulgar, nua e crua, ganhará em troca uma leitura de sensações difíceis de serem descritas, uma experiência única, rica e diferente.