O tratamento da experiência pessoal a partir de uma perspectiva realmente íntima no romance deve-se em boa parte a Dorothy Richardson, segundo a gente ouve dizer, e resolvi ler esse junto a Joyce e Dujardin, para ver. Se meu inglês não ajuda, ajuda a própria característica do fluxo e do monólogo interior, ou seja, em tese vale o paradoxo, a saber, não está organizado em palavras nem para um leitor. Digamos que eu seja um leitor e não um escritor usando a técnica pela carência no idioma. Se o leitor escuta os pensamentos do personagem, não há de fazer tanta diferença já que ele não pensa em inglês, quero dizer, o pensamento consiste de outra substância que não verbal. Porque o texto não deve parecer um texto, seja em que idioma for, mas pensamentos – eis sua dificuldade e beleza.
Logo de início, se percebe que há um outro tipo de contexto, alguma coisa próxima a Robert Walser. Mas é só uma impressão. Na realidade, quando se começa a ler seguidamente bons romances, quero dizer, clássicos (porque são em alguma dimensão irrefutavelmente bons), sempre aparecem essas associações).
“Miriam groaned. She was a governess now. Someone would ask her that question. She would ask Pater before he went.... No, she would not. ... If only he would answer a question simply, and not with a superior air as if he had invented the thing he was telling about. She felt she had a right to all the knowledge there was, without fuss... oh, without fuss—without fuss and—emotion.... I am unsociable, I suppose—she mused. She could not think of anyone who did not offend her. I don't like men and I loathe women. I am a misanthrope. So 's Pater. He despises women and can't get on with men. We are different—it's us, him and me.” Para mim, não há sombra de dúvida: as técnicas do fluxo de consciência e do monólogo interior permitem uma aproximação legítima dos pensamentos, de outra maneira impossível. Emoções, lembranças, fantasias, desejos, a expressão obtém poder e perde obviedades, o que além do ganho estético traz um outro, o de espaço e tempo. Em poucas linhas ficamos sabendo o que interessa à personagem, o que, no que lhe interessa, é relevante para a história, o que ela pensa do outro personagem – que pode ser uma chave futura de entendimento – como ela é, como ela acha que é – o que uma nuance importante para os relacionamentos (inclusive num romance) –, o que costuma fazer e o que a impede de ser sempre assim, seus anseios, suas mágoas, se com tais anseios e mágoas será possível ainda ter afinidades com as pessoas, em especial àquela pessoa – por que isso é assim?, simboliza fracasso?, ser diferente representa ser defeituoso? A rapidez com que passa dessa reflexão à inveja e da inveja ao outro extremo, o motivo de tal mudança – já emendando com reminiscências que se mesclam a um futuro possível, o que seria se as coisas fossem como o costume, o que será caso não. “He's failed us because he's different and if he weren't we should be like other people. Everything in the railway responded and agreed. Like other people... horrible.... She thought of the fathers of girls she knew — the Poole girls, for instance, they were to be "independent" trained and certificated — she envied that — but her envy vanished when she remembered how heartily she had agreed when Sarah called them sharp and knowing. Mr. Poole was a business man... common... trade.... If Pater had kept to Grandpa's business they would be trade, too — well-off, now — all married. Perhaps as it was he had thought they would marry.” Fico pensando quantas páginas Tolstoi gastaria para dizer algo parecido...
Dei o exemplo de um escritor magistral. Se considerar os medianos, então, simplesmente não tenho mais vontade de ler. Alguém me disse que é arrogância de escritor. Então que seja. Não tenho vontade mesmo, fazer o quê? Se intuitivamente Dostoievski e Henry James faziam algo bem próximo dessa forma de escrever um romance, hoje, com as referências – Virgínia Woolf, Burguess, Musil, Amos Oz, Nadine Gordimer, Clarice Lispector, Schnitzer, Joyce, Christa Wolf, Dujardin, Roa Bastos, Cabrera Infante etc, a narrativa convencional se torna meio que um filme em preto-e-branco. Pode dar certo? Claro. Em situações especiais. A primeira delas, autores do século XIX, ou antes. A segunda, quando por alguma razão a história contada pede. Nas normais, não há mais um porquê. Lembro até de Shogun, aquele calhamaço best-seller, com um uso bem bacana desses recursos e outros mais – num livro pra lá de pop. Mata portanto o argumento de ser coisa cult. Cult são os vampiros...
Gosto muito do final, o qual não vou naturalmente revelar; mostra outra virtude do texto, o dizer sem dizer – a afirmação que só pode ser assim considerada a partir da mente da personagem.
Dorothy Richardson, uma ótima autora; Pointed roofs, um ótimo livro. Cadê a tradução?