Ando chamando o Jan Neruda de “o Neruda verdadeiro”, o que é apenas uma forma de fazer propaganda. Trata-se de um ótimo escritor, esse tcheco.
O livro é composto por duas novelas ou mesmo esboços de romances e vários contos.
A primeira novela, "Uma semana em uma casa tranquila” é uma espécie de “O cortiço” da República Tcheca! Como no romance do Aluísio Azevedo, Neruda conta, simultaneamente, várias histórias de personagens e famílias que viviam no mesmo endereço, todos eles inquilinos sujeitos a um mesmo senhorio, destacando os seus dramas, as suas crises financeiras, as suas paixões e os seus desencontros.
A outra novela é “Figuras (Fragmento de um idílio encontrado entre as anotações de um aspirante a advogado”, escrita dez anos depois. Ah, evoluiu o Neruda, evoluiu mesmo. Essa segunda novela tem um mote muito parecido, isto é, os curiosos tipos que se encontra na vizinhança, bem como os inusitados resultados da interação com eles. Mas, ao contrário da primeira, cujo cenário é caótico e as histórias se misturam sem que se identifique um grande fio condutor, nesta segunda há um narrador bem definido que traça as suas impressões em um diário.
O resultado foi um tanto machadiano, ou seja, ficou ótimo. Há muita comicidade no enredo, pois o pretenso advogado é um tanto esquisito como, de maneira geral, são os principais autores de diários na literatura, e não podemos deixar de dar algumas risadas das suas tentativas de aplicar a política da boa vizinhança a partir do momento em que se muda para uma casa em Malá Strana.
Compreendemos perfeitamente as razões do advogado ao lidar com os vizinhos e isso nos levar a sorrir diante das situações ridículas que lhe acontecem, porque nós mesmos já temos experiências semelhantes. O autor também brinca com a metalinguagem: de repente, no meio do diário, o advogado cita uma frase de... Neruda.
Em suma, achei muito bem construído, superior à novela que abre o livro, pois mais eficaz na sua exposição de vizinhos vivendo histórias entrecruzadas.
Os demais textos do livro são, efetivamente, contos. Neles, o que me chama a atenção é que sempre são narrados em primeira pessoa por um indivíduo que lança um olhar ao passado. De fato, todas as histórias dizem respeito a personagens e situações curiosas que o narrador traz à memória novamente.
Por vezes ele recua tanto nas memórias que chega à infância, e há aí dois enredos excepcionais: “A Missa de São Venceslau”, em que um coroinha decide passar a noite escondido na igreja para assistir a uma missa que, segundo a lenda, o próprio São Venceslau celebrava à meia-noite, e “De como a Áustria não foi destruída às 12h30 do dia 10 de agosto de 1849”, que trata do pueril plano de um grupo de moleques para derrubar o governo e instaurar uma revolução. São ótimas peças.
Outro conto que me chamou a atenção foi “De como o Sr. Vorel esturricou seu cachimbo de espuma do mar”, uma história triste em que se observa que mesmo em uma grande capital europeia, como já era Praga à época, existiam certos preconceitos provincianos, certa prevenção contra os forasteiros, o que poderia levar a resultados muito cruéis e mesmo trágicos, como o exposto.
Há mais contos de tipos singulares, como “O Sr. Rysanek e o Sr. Schlegel” e “O Dr. Arruinamundos”, mas o que eu mais gostei mesmo, de todos os contos, foi o que se chama “Escrito no Dia de Todos os Santos”, que trata de uma pobre solteirona que foi enganada por dois fanfarrões que se fizeram seus pretendentes. Há uma construção bem interesse nesse conto, que começa de maneira misteriosa em um cemitério, mas que vai se esclarecendo à medida que a história avança. Pareceu-me que ficou tudo “fechadinho” nesse conto, gostei bastante, sem falar na mensagem triste da história.
Ou seja, vale muito a pena ler esse Neruda. Não sei que razões teve o Pablo para que escolhesse justamente o nome dele, mas agora estou convencido de que fez uma excelente escolha.