"Muitos são os caminhos de leitura para os poemas do livro De Pé, de Leonardo Mathias. Muitos são os diálogos estabelecidos: diálogos e nuances entre as impossibilidades do discurso, que não limitam o poeta. Diálogos com a própria poesia, com as epígrafes, as dedicatórias e, principalmente, com o verbo e a palavra que se tornam corpo – do poema –, e com o corpo que se torna palavra e verbo. Cantáveis, estes poemas se tornam móbiles, movidos por forças extremas e naturais que impulsionam a criação, mesmo quando ela parece impossível. Mas, ao mesmo tempo, levam esses móbiles e cantos para o imprevisto e para o desconhecido. Os movimentos acontecem entre extremos – o não, o vazio, o nada, o silêncio e fazem oposições não hierárquicas ao sim, ao ir, ao tudo e à palavra. Palavra, já definida por Beckett" na epígrafe de De Pé, como “mácula desnecessária no silêncio e no nada.” Pensando mais detalhadamente nesses caminhos de leitura, o que faremos aqui é delineá-los. Trecho do texto "Móbiles Cantábiles: O corpo do poema sustenido prepara um suicídio. Uma breve leitura do livro "De Pé", de Leonardo Mathias" por Aline Rocha e Eduardo Lacerda
De Pé -
Leonardo Mathias
"de pé", em equilíbrio, o multiartista
Leonardo MAthias é o responsável pela maior parte da arte dos livros da Editora Patuá. Ter um livro com a arte dele confere uma beleza inquestionável à obra editada, e essa mão de MAthias preenche os espaços ocos das diversas obras com novos signos. Seu primeiro livro, “de pé”, editado em 2012 e relançado em 2014, traz uma outra verve do homem que, além de artista gráfico, é artista plástico e trabalha com audiovisual. “de pé” é um livro cheio de nuances. É notável como MAthias nomeia os seus versos com nomes de obras artísticas ou de artistas. Alguns poemas têm dedicatórias a eles. Outros, são mesmo os artistas consagrados pela história das sete artes os nomes dos poemas. Vale a pena destacar alguns de seus poemas, que são de uma angústia alivada: diante da impossibilidade da concretude da arte, abre-se um vão, e a palavra se faz. “um homme qui dort” diz: “no dorso do dia mordente adormecido na vanguarda da vida onde ante sua vontade rasga e remonta a mentira o poeta pode desistir” Mas, em poema dedicado a Bukowski, Ginsberg e Serge Gainsburg, temos: “quando ando rindo rente à morte sinto-intuo e entoo que a vida ida é eco seco a esse eu suposto oposto” Parece pessimista, mas não é. Neste poema, a arte se completa. Como no poema que dá nome ao livro: “de pé pousado no plexo calmo do acaso o vórtice come concreto corpos velhos dissolvem no espaço do corpo; correm espaços-esboços diluindo estruturas no corpo qual entorna distraído todo o seu entorno” Para Baudelaire e Barthes ele dedica o seguinte poema: “res pi rar ar de ar te” que vem a ser: “respirar ar de arte” ou “res-pirar arde arte”? Em “de pé”, encontra-se todo tipo de poema, desde poetrix até o poema em prosa; desde o poema-pílula de apenas um verso até poemas condensados, além do inusitado par de parêntesis que se separam por duas páginas em branco, poema concreto seguido por: “dentro do escasso o espaço esparsa” Note-se que MAthias não se norteia pelo fácil. Em seus poemas, todos os homens que o habitam artisticamente se desdobram. Uma lâmpada com moscas mortas vira um poema, impecável! Mortas, elas atormentam o poeta como se estivessem vivas, e, no final, re-morrem: “imemorável móbile de moscas mortas ariscas que acariciam-me dispostas sobre as carnes vivas dos meus calcanhares cerzidos oferecem-se murchas esfumaçam silêncio por seus ásperos hálitos através de zunidos inexistentes” MAthias, que torna os livros alheios mais bonitos e atraentes, mais escandalosamente fluentes, fez do seu uma obra de releitura, de referências, tornando possível reunir grandes nomes em pequenos versos e fazendo, de forma muito autoral, uma (re)leitura de toda a modernidade. Um livro bom para se ter, ler, guardar, ver na estante, reler e usufruir nos momentos de silêncio e de barulho – quando nada quer calar.
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