O livro Sobre a Televisão, de Pierre Bourdieu, tem como objetivo apresentar as tramas de censura que se escondem por trás das imagens e dos discursos exibidos pela televisão, que são capazes de influenciar as diferentes esferas da produção cultural.
No prólogo da obra, Bourdieu ressalta os motivos por que critica os mecanismos televisivos e esclarece que suas análises não são “ataques” contra os jornalistas e contra a televisão, mas que sua intenção é que seus estudos possam contribuir para que “o que poderia ter se tornado um extraordinário instrumento de democracia direta não se converta em instrumento de opressão simbólica”. (p. 13)
O livro divide-se em duas partes. A primeira, intitulada O estúdio e seus bastidores, inicia-se com questionamentos sobre a censura na TV. Por causa da censura na televisão, que muitas vezes não nos damos conta, Pierre Bourdieu instiga se deveríamos abster-nos de nos exprimir nela, pois, de acordo com ele, “não se pode dizer grande coisa na televisão, muito especialmente sobre a televisão”. (p.15) O autor discuti ainda o fato de que a TV passou a ser uma espécie de “espelho de Narciso”, um lugar para se ser percebido, como uma necessidade de reconhecimento, por parte de escritores, filósofos etc. pelos jornalistas, que significa o próprio sentido de ser.
Ainda na primeira parte, Bourdieu nos apresenta conceitos como o de “fatos-ônibus”. Os “fatos-ônibus” fazem parte de um mecanismo de ação simbólica que se explica por atrair a atenção para fatos que são de natureza a interessar a todo mundo, porém sem estimular o pensamento crítico. Isso faz parte de uma espécie de censura invisível que “faz da televisão um formidável instrumento de manutenção da ordem simbólica”. (p. 20) É importante ressaltar também a metáfora dos óculos apresentada pelo autor, e a idéia da busca da exclusividade que o jornalista enfrenta, o que resulta muitas vezes na uniformização e na banalização de determinado assunto.
Bourdieu refere-se ainda à batalha pelos índices de audiência, pelo sucesso comercial e ao fato de que a urgência disso tem prejudicado as discussões críticas, devido à falta de tempo para aperfeiçoar o pensamento, o que tem feito surgir os fast thinking, pessoas que pensam por “idéias feitas”. O domínio da TV é percebido também através da manipulação dos debates. Bourdieu exemplifica isso através dos conceitos de debates verdadeiramente falsos ou falsamente verdadeiros.
Na segunda parte da obra, denominada A estrutura invisível e seus efeitos, Pierre Bourdieu dá partida a sua análise, invocando a noção de campo jornalístico. Através de tópicos como Fatias de mercado e concorrência, Uma força de banalização, Lutas arbitradas pelo índice de audiência, A influência da televisão, A colaboração e o Direito de entrada e dever da saída, Bourdieu esclarece mais ainda os efeitos da censura e da concorrência sobre os jornalistas, e os reflexos disso no conjunto das produções simbólicas.
Em suma, o livro Sobre a Televisão traz uma rica análise sobre os efeitos da televisão na construção de uma esfera cultural que interfere na vida de milhões de pessoas. A obra é extremamente recomendável e de vital importância para desenvolvermos nosso pensamento crítico referente à busca de audiência, à censura televisiva e à forma pela qual podemos incitar uma quebra desses moldes já estabelecidos.