Feyerabend desmonta o pseudo racionalismo, objetividade e neutralidade da ciência. Ciência não é religião e o pensamento único destrói a necessária diversidade do saber humano. É o que ele defende como "anarquismo epistemológico". O pluralismo teórico. O terrorista epistemológico como acusavam seus críticos?
P.F, austríaco (lutou na 2a Guerra no exército alemão), morreu na Suíça em 1994. Doutor em Física, lecionou principalmente filosofia da ciência.
Seu livro mais importante, "Contra o Método", é encontrado para baixar na integra na internet.
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TRECHOS
Estamos ameaçados pela monotonia e pelo tédio. A própria civilização ocidental vem perdendo sua diversidade.
Muitos dos problemas dos chamados Terceiro Mundo, tais como fome, as doenças, e a pobreza, parecem ter sido causados - e não amenizados - pelo avanço constante da Civilização Ocidental.
Há muitas maneiras de viver, que culturas diferentes da nossa não são erros, e sim resultados de uma adaptação delicada ao meio específico, e que elas encontraram, - e não perderam - os segredos de uma boa vida.
Nações mais belicosas usaram a guerra e mataram para erradicar aquilo que não se enquadrava em sua visão de Bondade. A Lei de Moisés.
A persistência também caracteriza desenvolvimentos mais recentes nas ciências (físicas e sociais) que são holistas, dão ênfase aos processos históricos e não às leis universais e deixam a realidade surgir de uma interação (muitas vezes indivisível) entre o observador e a coisa observada.
Oportunismo: os líderes das culturas conflitantes examinam as instituições, costumes e crenças mútuas e aceitam ou adaptam aquelas que consideram atraentes. De qualquer maneira, um encontro oportunista de culturas não pode ser reduzido a regras gerais.
Os gregos introduziram um método para lidar com a variedade cultural. Tentando separar o Caminho Certo do Caminho Errado, eles não se valiam nem de tradições mantidas firmemente nem de abstrações: valiam-se de argumentos.
O que os gregos inventaram não foi apenas o argumento, mas uma maneira especial e padronizada de argumentar, que, acreditavam, era independente da situação em que ocorresse e cujos resultados tinham autoridade universal. Noção de objetividade. E ser racional ou usar a razão passou a significar usar essas maneiras e aceitar seus resultados.
A variedade cultural não pode ser domesticada por uma noção formal de verdade objetiva, porque ela contém uma variedade dessas noções.
As noções formais de objetividade foram usadas não só para criar conhecimento, mas também para legitimá-lo.
Einstein, que mais de uma vez ridicularizou a preocupação com uma "verificação de poucos efeitos".
Para alguns intelectuais, entre eles os primeiros cristãos, o GNOSTICISMO era o aute da irracionalidade. Hoje, ser irracional significa, por exemplo, acreditar em astrologia, no criacionismo... Boas justificativas precisam ser descobertas exatamente como ocorre com boas teorias ou bons experimentos.
O Iluminismo, é um slogan, não uma realidade. "O Iluminismo", escreveu Kant, "é a liberação do homem d imaturidade que ele atraiu para si. A imaturidade é a incapacidade humana de fazer uso de sua compreensão sem orientação de outro". O Iluminismo nesse sentido, é uma raridade hoje em dia. Os cidadãos seguem as sugestões de especialistas, não do pensamento independente. Isso é o que hoje significa ser racional. "Se eu tiver um livro", escreveu Kant, "que compreenda por mim, um pastor que tenha uma consciência por mim, um médico que decida minha diet e assim por diante não preciso me incomodar. Se eu puder pagar, não preciso pensar - outros irão prontamente realizar o trabalho cansativo para mim".
O início da desonestidade básica de todas s filosofias Racionais: elas introduzem premissas estranhas que não são nem plausíveis nem argumentadas, e depois ridicularizam seus oponentes por terem ideias diferentes.
Tentativas de fornecer um relato Racional do processo de transposição (teorias de indução e confirmação, idealismo transcendental) fracassaram. Elas também pareciam fazer com que cientistas se transformassem em máquinas indutoras e processadores da dados. Então os defensores da teoria sugeriram uma solução simples: cientistas são como artistas; eles alcançam a realidade em uma série de milagres chamados saltos criativos.
Especialistas muita vezes não sabem o que estão dizendo e a "opinião erudita" , comumente,não passa de boatos desinformados.
A Razão foi um grande sucesso entre filósofos que não gostam de complexidade entre políticos (tecnólogos, banqueiros, etc) que não se importam em acrescentar um pouco de classe a sua luta pela dominação do mundo. É um desastre para o resto.
O Relativismo tem uma longa história. Foi discutido por Platão e Sócrates, Inspirou o movimento cético e, através dele, os predecessores do Iluminismo, tais como Montaigne. Está bastante em moda como uma arma contra a tirania intelectual e como um meio de desmascarar a ciência.
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A civilização ocidental, de um modo geral, hoje valoriza a eficiência a tal ponto que ocasionalmente faz com que as objeções éticas pareçam "ingênuas" ou "não científicas".
A variedade cultural gera uma variedade de reações, desde o medo e a aversão até a curiosidade e o desejo de aprender, e uma variedade correspondente de doutrinas que vão desde formas extremamente xenofóbicas de dogmatismo até formas igualmente extremas de relativismo e oportunismo.
(a respeito das grandes construções gregas) Não temos nenhum relato escrito de oleiros metalúrgicos, arquitetos, mineiros ou pintores.
A tarefa do pensamento (segundo Aristóteles) é compreender e talvez aprimorar aquilo que fazemos quando envolvidos em nossos negócios comuns e cotidianos, não é divagar em uma terra de ninguém de conceitos abstratos e empiricamente inacessíveis.
O que conta como evidência, ou como resultado importante, ou como "um procedimento científico sólido" depende das atitudes e julgamentos que mudam com o tempo, profissão e ocasionalmente até de um grupo de pesquisa para outro.
O relativismo é uma doutrina popular. Repelidas pela presunção daqueles que acham que sabem a verdade e tendo testemunhado os desastres criados pelas tentativas de impor um modo de vida uniforme, muitas pessoas creem que o que é verdade para uma pessoa, um grupo, ou uma cultura,
No darwinismo clássico os organismos se adaptam a um mundo que é dado independentemente de suas ações Essa "simples visão de que o ambiente externo muda por alguma dinâmica própria e é seguido pelo organismo não leva em consideração o efeito que os organismos tem sobre o ambiente... o organismo e o ambiente não são realmente determinados esperadamente; O ambiente não é uma estrutura imposta aos seres vivos de fora, mas é, na verdade, uma criação daqueles seres.
Distinguindo "meras crenças" e "informação subjetiva", os defensores do racionalismo científico toleram aqueles primeiros, mas usam leis, dinheiro, educação e relações públicas para colocar os últimos em uma posição privilegiada. Tiveram um grau bastante surpreendente de sucesso. A separação da igreja e do Estado, leis que proíbem tudo, a não ser procedimentos médicos oficialmente reconhecidos, políticas educacionais estritas, a combinação de ciência com projetos nacionalmente importantes, tais como defesa nacional - tudo isso tende a fortalecer aquilo que os grupos poderosos consideram verdade objetiva e que enfraquecem a opinião pública.
A solução "correta", muitas pessoas hoje sugerem, é levar em consideração tanto o conhecimento local quanto o conhecimento ocidental e utilizá-los de acordo com os costumes das comunidades afetadas. É verdade que estes nem sempre são benéficos, mesmo na avaliação daqueles que os praticam; mas eles são parte da vida das pessoas e, portanto, pontos de referência naturais. Desconsiderá-los significa tratar as pessoas como escravos que precisam da instrução dada por senhores superiores.
Parabenizando a si próprios por sua tolerância, eles são ou ignorante sou desonestos, ou as duas coisas.
Em 1854, o Comandante Pery, usando a força, abriu os portos de Hakodate e Shimoda aos navios americanos para abastecimento e comércio no Japão. Os membros do Iluminismo japonês raciocinaram: o Japão só pode manter sua independência se ficar mais forte. E só pode ficar mais forte com a ajuda da ciência. Usará a ciência de maneira eficaz se não apenas praticá-la, mas também acreditar na ideologia que lhe serve de base. Para muitos japoneses tradicionais, essa ideologia era bárbara. Era preciso adotar meios bárbaros, considerando-os avançados para introduzir toda a civilização ocidental a fim de sobreviver.
As instituições governamentais e o público em geral ainda querem milagres de seus próprios líderes religiosos, os cientistas.
Para os antigos gregos, os deuses gregos existiam e atuavam independentemente dos desejos dos seres humanos. Eles simplesmente "estavam lá". Na visão dos racionalistas modernos, os deuses gregos são partes inseparáveis da cultura grega, eles eram imaginados, não existiam realmente. Porque os deuses homéricos não podem existir no mundo científico. As leis científicas são reais, enquanto os deuses não o são. Isso também faz da acessibilidade e da licitude em critério da realidade. Isso faria com que pássaros ariscos e anarquistas fossem bastante irreais. Ou nós chamamos os deuses e os quarks igualmente de reais, mas dependente das circunstâncias, diferentes, ou paramos totalmente de falar sobre a "realidade" das coisas e, em vez disso, passamos a usar esquemas de ordenação mais completos.
O "desenvolvimento", por exemplo, com frequência gerou escassez e agora está tentando eliminar e destruir instituições e culturas que mantinham a vida de muitas pessoas.
Dê mais dinheiro às artes e às humanidades e faça renascer as qualidades míticas da vida humana.
Xenófanes não se opôs apenas às tendências culturais de sua época. Ele criticou a ideia de que existem deuses que se parecem com os humano, que são cruéis, zangados e traiçoeiros como os heróis da épica e que influenciam a história.
"Se o gado, ou os leões, ou os cavalos tivessem mãos, assim como os humanos; se pudessem pintar com suas mãos e desenhar e assim criar quadros - então os cavalos ao desenharem seus deuses desenhariam cavalos; e o gado nos daria quadros e estátuas de gado" (Xefófanes)
Moira, traduzido como "share" em inglês, significa "parte", parte atribuída. Esse também é o sentido original de "sorte" ou "destino".
Os deuses gregos eram uma presença viva. Eles estavam lá. Hoje não podem ser encontrados em parte alguma.
Quase nenhum político, colonizador ou desenvolvimentista estava preparado para arguir em defesa das coisas que ele podia obter pela força (há exceções, mas são raras).
Os índios Delaware abordam o mundo como pintores que usam um pincel diferente, cores diversas e um tipo diferente de pinceladas para cada episódio de neve.
Segundo os Nuer, o tempo não limita a ação humana, mas é parte dela e segue o seu ritmo.
Não acho que eles nem sequem vivenciam o mesmo sentimento de lutar contra o tempo, ou ter de coordenar as atividades segundo uma passagem abstrata de tempo, porque seus pontos de referência são, sobretudo as próprias atividades, que sçao geralmente atividades associadas ao lazer...
Uma enorme quantidade de conhecimento encontra-se na habilidade de perceber e interpretar fenômenos, tais como nuvens, o surgimento do horizonte e uma viagem oceânica.
As imagens que os autores passam para gerações futuras são formalizadas e, ocasionalmente, totalmente o oposto da verdade... Algumas vezes falava-se sobre a "Tomada da Bastilha", embora na verdade a Bastilha não tenha sido tomada por ninguém o o 11 de julho de 1780 foi meramente um episódio na Revolução Francesa; o povo de Paris entrou na prisão sem dificuldades e lá encontrou apenas alguns prisioneiros. Mas apenas a captura da Bastilha passou a ser o feriado nacional da revolução.
O uso da escrita para preservar informações mais substanciais foi criticado por Platão.
O épico homérico "definiu" relações sociais básicas (tais como as quatro virtudes cardinais da Grécia arcaica e clássica: coragem, devoção, justiça e sabedoria).
Odisseu muitas vezes age de uma maneira sábia e equilibrada. Ele é escolhido para falar com as estrelas temperamentais como Aquiles, ele é enviado em missões difíceis. Mas sua sabedoria também pode mudar e se transformar em hipocrisia e engano. Os exemplos mostram o que a coragem e a sabedoria são, mas não as explica claramente, como faz uma definição lógica.
Alguns antigos autores de tragédia mostravam que os valores básicos eram incoerentes e que o conflito moral era inevitável.
Segundo Aristóteles, as tragédias, quando construídas de maneira adequada, revelam leis universais de existência humana e, nesse sentido, são "mais filosóficas que a história". As leis sociais estão enterradas sob os detalhes; os historiadores organizam os detalhes de acordo com seus interesses ou simplesmente de acordo com o que é conveniente, enquanto o autor de tragédias atravessa a camada de fatos específicos, encontra o que é universal e o impõe nas mentes do público. Ele é pesquisador, historiador social e relações públicas, tudo continuo numa só pessoa.
A história, para Sófocles, era irracional demais para ter sido criada por deuses racionais.
Os filósofos interpretaram o desenvolvimento como a emergência gradual de uma realidade que tinha até então ficado escondida em virtude da ignorância e da superficialidade A realidade tinha sempre estado lá, mas não tinha sido reconhecida pelo que é. Eles até acreditavam que eles próprios tinham descoberto tudo, simplesmente usando os poderes de suas mentes extraordinárias. Para eles, a abundância de senso comum e das primeiras tradições não era prova de uma realidade igualmente abundante, e sim da natureza multifacetada do erro. Parmênides representa um caso extremo - a realidade tem apenas uma propriedade: a propriedade de existir.
"O mundo só nos é dado uma vez", escreveu Ernst Mach, o que significa que afirmações que implicam regularidades anistóricas são idealizações ou instrumentos, e não descrições da realidade.
A revolução verde foi um sucesso do ponto de vista de práticas de marketing ocidentais, mas um terrível fracasso para as culturas interessadas em autosuficiência.
As afirmações científicas, dizem eles, são resultados de um processo histórico. Essa linha de raciocínio pode ser também aplicadas aos deuses gregos. Não há saída: ou dizemos que os quarks e os deuses são igualmente reais, mas ligados a circunstâncias diferentes, ou simplesmente deixamos de falar de coisas reais.
Mas as condições sociais mudam e as ciências mudam com elas.
Em um determinado momento, era um mundo cheio de deuses; mais tarde tornou-se um mundo material monótono e esperamos que se transforme em um mundo mais pacífico, onde a matéria e a vida, o pensamento e o sentimento, a inovação e a tradução colaborem para o benefício de todos.
No Timeu de Platão, um ser chamado Deus, ou demiurgo, ou pai constrói o mundo ao tentar fazer com que um material irregular e amorfo se molde a um plano preciso e detalhado. Como um engenheiro, esse Deus "convence" o material a produzir "a cópia mais excelente e perfeita" do plano. Quanto maior for a semelhança entre o plano e a cópia, maior será a conquista.
A imitação desempenhou um papel em Bacon, que comparava a mente a um espelho torto e sujo, cuja superfície tinha de ser limpa e aplanada para que o espelho pudesse, então, produzir imagens verdadeiras da natureza.
Para Parmênides, a tarefa do conhecimento (científico) é descrever a realidade. Isso parece com a imitação. No entanto, Parmênides acrescenta que a realidade está escondida em fenômenos ilusórios e que é necessário o apoio divino para traze-la para o primeiro plano. Temos aqui um outro relato de como as artes e a ciência deve funcionar.
"Poetas não criam a partir do conhecimento, e sim com base em certo talento natural e guiado pela inspiração divina, exatamente omo os videntes e os cantores dos oráculos" (Platão): "Estar possuído pelas musas, uma loucura que desperta uma alma terna e intocada se consegue agarrá-la, fá-la feliz e educa-a, elogiando velhas estórias em canções e em todas as outras formas de poesia que virão depois de nós. Seja quem for que bate à porta da poesia sem a loucura das musas, confiando apenas a técnica irá fazer dele um poeta inteiro, não alcança seu objetivo; ele e sua poesia da razão desaparecem diante da poesia do louco" (Apologia de Sócrates. Platão)
Einstein explica por que teorias e conceitos científicos são "ficções" ou "criações livres da mente humana" e por que "só a intuição, baseando-se na compreensão solidária da experiência, pode alcançá-los". Segundo ele: "Essas noções e relações, embora sejam criações mentais livres, nos parecem mais fortes e mais inalteráveis que a própria experiência sensorial individual, cujo caráter - sendo nada mais que o resultado de uma ilusão ou alucinação - nunca é garantido".
O ponto de partida do processo que, segundo Einstein, leva à realidade é totalmente irreal.
"Quem pode descrever, quem pode conceber, o número e a severidade das punições que afligem a raça humana? ... sofremos com roubos, cativeiros, correntes, prisão, exílio, tortura, mutilação, perda da visão, a violação da castidade para satisfazer a luxúria do opressor e muitos outros males terríveis. Quantos inúmeros acidentes vindos de fora ameaçam nossos corpos - extremos de calor e frio, tempestades, enchentes, inundações, raios, trovões, granizo, terremotos, casas que tombam; ... pelos incontáveis venenos em frutas, na água, no ar, nos animais; pela dolorosa ou até letal mordida de animais selvagens; pela loucura que um cão raivoso transmite, de modo que mesmo o animal que entre todos os outros é o mais amigo de seu próprio dono se transforma no objeto de um medo mais intenso que o que temos de um leão ou dragão ... Que desastres são sofridos por aqueles que viajam por terra e por mar! Que homem pode sair de sua própria casa sem ser exposto a todos os tipos de acidentes imprevisto? ... Será que a inocência é proteção suficiente contra os vários ataques do demônio? Mesmo que nenhum homem possa pensar isso, até as criancinhas batizadas, que certamente não são superadas em inocência, às vezes são tão atormentadas que Deus, que permite tudo isso, nos ensina por essa razão a lamentar as calamidades dessa vida e desejar a felicidade da vida que virá". City of God (1950), Santo Agostinho.
É o "castigo junto" pelo "primeiro pecado",segundo ele.
O realismo ótico deixa a vida e a alma de fora
Cambises (imperador Persa, invadiu o Egito), que invadiu templos, queimou imagens sagradas, violou túmulos antigos e zombava dos costumes com os quais não era familiar, não era, segundo Heródoto, um pensador iluminado, "era completamente louco). Protágoras: "o que é bom ou mau, justo e injusto, piedoso ou ímpio é aquilo que o Estado acha que é e então declara que é lei". Muito mais tarde, Montaigne e seus seguidores do Iluminismo disseram o mesmo.
A perspicácia humana é mudada pelas circunstâncias.
Segundo Popper, "as divisões do aprendizado são fictícias e extremamente enganosas; não pode haver qualquer demarcação acentuada entre a ciência e a metafísica; e o significado da demarcação, se existe algum, não deve ser superestimado. Até as pseudociências podem ser significativas".
Niels Bhor (cientista dinamarquês) indicou que "ao lidar com a tarefa de organizar um campo de experiência totalmente novo, quase não podemos confiar em quaisquer princípios tradicionais, por mais amplos que sejam".
O neopositivismo não foi uma reforma ousada e progressista da filosofia, foi uma queda em um novo primitivismo filosófico.
Não há nenhum limite nítido entre memória e imaginação - nenhuma experiência é tão isolada que outras experiências não possam influenciar a lembrança dela. As lembranças, no entanto, "são poesia e verdade combinadas".
As questões da fato e realidade dependem das questões de valor.
Em Homero, eventos como sonhos, as ações dos deuses ou ilusões eram vistos como "igualmente reais".
A evolução deve ser ensinada coo um fato, ou como uma teoria que lida com fatos, enquanto o Gênesis pode quando muito, ser ensinada como crença.
E não há nenhum ser humano individual a quem ele (Galileu) pudesse explicar suas sugestões e quem ele pudesse instruir em seus próprios modo de pensar - o que há são comitês anônimos, muitas vezes repletos de incompetentes que consideram sua própria ignorância uma medida das coisas.
Um cientista moderno que publique seus resultados em um jornal ou dê entrevistas públicas sem antes tê-los submetido ao escrutínio do corpo editorial de um periódico profissional ou de grupos com autoridade comparável comete um pecado mortal que faz dele um pária por bastante tempo.
A educação não é só ideia. Ela também é livros, habilidades, equipamento para demonstrações, laboratórios, filmes, diapositivos, curso para professores, programas de informática, problemas, exames e assim por diante.
Segundo a primeira tradição, a sociedade deve se adaptar ao conhecimento na forma em que ele é apresentado pelos cientistas.
De acordo com a segunda tradição, o conhecimento científico é especializado demais e relacionado a uma visão muito restrita do mundo para ser adotado pela sociedade assim, sem mais nem menos. ele deve ser examinado e julgado a partir de um ponto de vista mais amplo que inclua os interesses humanos e os valores que fluem desses interesses, e suas reivindicações de realidade devem ser modificadas para que estejam de acordo com esses valores. Por exemplo, a dor, os sentimentos de amizade, de medo, de felicidade e a necessidade da salvação, ou em termos seculares ou em termos de algum domínio transcendente do ser desempenham um papel muito importante nas vidas humanas. Elas são realidades básicas.
"Nós os filósofos", escreveu Edmund Husserk (1936), somos funcionários da humanidade."
Existem hoje cerca de dez mil filósofos ensinando nos EUA e Canadá. A maioria deles são servos obedientes do status quo. Mas suponhamos que 25% sejam criadores da desordem...
Ou comparem a quantidade de dinheiro que está sendo usada para manter o caos com a quantidade de dinheiro que apoia a monotonia. As porcentagens do PIB para a Defesa e para as contribuições para as artes darão uma primeira aproximação.
Vejo que creem na autonomia da arte, do pensamento e do sentimento em detrimento do dinheiro.
No mundo real, um artista precisa de dinheiro. Então o que queremos dizer com autonomia?
Se descobrirmos que os fenômenos relatados por Galileu não foram confirmados por ninguém mais,e que não havia motivos para confiar no telescópio como instrumento de pesquisa e sim muitas razões, tanto teóricas quando observacionais, que falavam contra isso, então foi tão pouco científico da parte de Galileu fazer publicidade desses resultados experimentais aos quais falta a corroboração independente e que são obtidos por métodos duvidosos - por mais que essas observações estejam próximas das nossas.
A afirmação de Grover de que a "ciência funciona" não elimina meu desconforto. A ciência funciona às vezes, muitas vezes ela fracassa e muitas das histórias de sucesso são rumores e não fatos.
Ela (a ciência) não só destruiu os valores espirituais que davam sentido Às vidas humanas como também danificou um controle correspondente do ambiente material sem substitui-lo por métodos de uma eficiência comparável.
A resultante impotência de grandes partes do chamado Terceiro Mundo é consequência da interferência externa, e não uma razão para dela.
Majid Rahnema, um estudioso iraniano, comparou os efeitos da ajuda desenvolvimentista com aqueles da AIDS, que destrói o sistema imunológico do corpo humano. Ele comentou também sobre a maneira pela qual o conhecimento foi transformado, deixando de ser um bem comum para ser uma mercadoria rara e inacessível.
Racionalidade e objetividade da ciência: um procedimento cujo objetivo principal e livrar-se de todos os elementos humanos com certeza irá levar a ações desumanas.
Os argumentos a favor de certa visão de mundo dependem de premissas que são aceitas em algumas culturas, rejeitadas em outras, mas que, em virtude da ignorância de seus defensores, supostamente tem validade universal.
Para os órficos, alguns cristãos e alguns fundamentalistas muçulmanos, muitas das coisas que um intelectual ocidental pode chamar de problemas não eram situações indesejáveis esperando para serem eliminadas pela engenhosidade humana, e sim seriam os testes de fibra moral.
Há visões de que os humanos são desajustados no mundo material, incapazes de entender sua posição e seu objetivo e "com necessidade peculiar" de salvação; há também a visão, intimamente relacionada, de que os humanos consistem de uma faísca divina envolta em um recipiente terreno, um "vestígio de ouro engastado na sujeira", como os gnósticos tinham o hábito de dizer, com "a necessidade peculiar" de libertação pela fé.
Mas os humanos, tendo necessidade peculiar de harmonia e a capacidade para isso, podem superar a fragmentação ao se libertarem dos grilhões do pensamento conceitual e da rivalidade que ele cria, baseando suas vidas no amor e na compreensão intuitiva.
Assim, a democracia, a imperfeição fatal da crítica e a descoberta de que a prevalência de uma visão nunca é nem nunca foi resultado de uma aplicação exclusiva de princípios racionais, tudo isso sugere que os esforços para reviver antigas tradições e para introduzir visões anticientíficas devem ser elogiados como começos de uma nova era de ilmuinismo, em que nossas ações são guiadas pelo insight e não meramente por slogans piedosos e muitas vezes basante idiotas.
Precisamos viver a vida que queremos mudar.
Minha objeção principal às soluções intelectuais dos problemas sociais é que elas começam em um contexto cultural restrito, atribuem validade universal a esse contexto e usam o poder para impô-lo a outros.
Uma discussão abstrata das vidas de pessoas que não conheço e com cuja situação não estou familiarizado não é apenas uma perda de tempo, é também desumano e impertinente.
Somente pessoas ingênuas ou intolerantes podem acreditar que um estudo da "natureza do homem" pode ser superior a contatos pessoais tanto em nossa vida privada quanto na política.
Ora, a política está de muitas maneiras relacionada com o amor. Ela respeita as pessoas, considera seus desejos pessoais, não os "estuda", seja por meio de pesquisas de opinião ou por trabalho de campo antropológico, mas, tenta entende-las de dentro, e conectar sugestões para a mudança com os pensamentos e as emoções que fluem desse entendimento. Em outra palavra, a política, se compreendida corretamente, é firmemente "subjetiva". É impossível desenvolver esquemas teóricos objetivos para ela.
Tenho pouco carinho pelo educador ou pelo reformador moral que trata suas malditas efusões como se elas fossem um novo sol iluminando as vidas daqueles que vivem na escuridão; desprezo os chamados professores que tentam despertar o apetite de seus alunos até que, perdendo todo o autorespeito e autocontrole, chafurdam na verdade como porcos na lama; só tenho menosprezo por todos os planos excelentes para escravizar pessoas em nome de "Deus" ou da "verdade" ou "da justiça", ou outras aberrações, especialmente porque seus perpetradores são covardes demais para aceitar responsabilidade por essas ideias e se escondem atrás de sua suposta "objetividade".
A objeção de que devemos primeiro ensinar as pessoas a pensar só reflete o convencimento e a ignorância dos seus autores, pois o problema básico é: quem pode falar e quem deve permanecer calado? Quem tem conhecimento e quem é apenas obstinado? Podemos confiar em nossos especialistas, físicos, filósofos, curadores e educadores? será que eles sabem o que estão dizendo ou meramente querem duplicar sua própria existência infeliz? Será que grandes mentes - Platão, Lutero, Rousseau, Marx, - tem algo a oferecer, ou é a reverência que sentimos por eles apenas um reflexo de nossa própria imaturidade?
Os pigmeus ou ou mindoros das Filipinas não querem direitos iguais - só querem que lhes deixem em paz. A "educação" não lida com os conflitos, e sim uma força policial o faz.
Basta olhar para aqueles físicos que até pouco tempo cortavam, envenenavam e irradiavam sem ter examinado métodos alternativos de tratamento que eram bem conhecidos, não tinham consequências perigosas e afirmavam ter bons resultados. Não teria valido a pena tentar esses métodos (não valia a pena tentar manter os filhos das bruxas vivos?) Valia a pena.
A maior desgraça do mundo - guerras, destruição de mentes e corpos, carnificinas sem fim - é causada não por indivíduos maus, mas por pessoas que objetivaram seus desejos pessoais e suas inclinações e assim se tornaram desumanas.
Muitos dos chamados pesquisadores da verdade que sistematicamente torturam animai, estudam seu desconforto e recebem prêmios por sua crueldade.
Como é que eu posso levar a sério uma pessoa que lamenta crimes distantes, mas elogia os criminosos em sua própria vizinhança?
Muitas pessoas - cientistas, artistas, advogados, políticos, padres - não fazem nenhuma distinção entre sua profissão e suas vidas. Se tem sucesso, consideram-no uma afirmação de sua própria existência. Se fracassam em sua profissão, então pensam que fracassaram também como seres humanos, não importa quanto alegria possam ter dado a seus amigos, filhos, esposas, amantes, cachorros.