O trabalho do jornalista e escritor Clinton Davisson me chama a atenção desde a década de 90. Conheci o escritor quando morava em Juiz de Fora. Freqüentávamos a casa de um amigo em comum onde, à noite, obrigávamos Clinton a contar histórias que ele tinha criado para um universo que ele chamava de “Hegemonia”.
Além disso, Clinton sempre se notabilizou por ser bom de idéias, não apenas para livros. Na faculdade, como não conseguia se sustentar com bolsas de 100 reais, simplesmente fundou um jornal. Não um veículo qualquer, mas um jornal redondo. Com uma proposta gráfica inovadora, um dos exemplares, por exemplo, tinha formato de bunda; o jornal causou furor em Juiz de Fora e ganhou a mídia nacional e lá foi Clinton ser chamado em São Paulo e até em Foz do Iguaçu, dar palestra sobre como fazer um jornal redondo. Claro que a Skol foi a primeira da fila para patrocinar a invenção. Outra invenção da qual virei fã foi o programa Cinema FM, da rádio universitária da UFJF. A idéia básica era criar um programa estilo mesa redonda, típico dos programas esportivos, só que de cinema. Simples, né? Mas ninguém nunca tinha pensado antes. O programa é um sucesso na Rádio Universitária de Juiz de Fora até os dias de hoje onde permanece no ar.
No ensino fundamental, Clinton era chamado pelos colegas de “cientista maluco”, pois, entre outras coisas, criava seus próprios brinquedos em um laboratório na garagem de seu pai. Foi esse jovem que criou o universo da Hegemonia, do qual me recuso a falar neste texto. Tudo bem que é genial, sei de coisas da estrutura da história que só serão mostradas no terceiro livro, mas, sejamos francos, o sucesso desta franquia está, graças a muito esforço e inteligência do autor, se consolidando e não há nenhuma contribuição que eu possa dar ao sucesso iminente das aventuras de Lob John Taylor e Ron Schowlen.
Não estou aqui para elogiar o Hegemonia, mas para reclamar de outra obra. Esta sim, minha preferida, que conta a história de um jogador de futebol chamado Willian Carlos Fáfia, nascido em Volta Redonda em julho de 1998, com problemas sérios de saúde, mas que deu a volta por cima e se tornou o melhor jogador do mundo.
Era 1995 e ele estava tentando publicar um livro chamado “Fáfia – A copa do mundo de 2022”, um livro com bastante humor que flertava com o épico ao mostrar a história de um jogador de futebol nascido em pleno ano 2000 e que crescera com dois outros amigos de infância em um período turbulento de guerra mundial entre Estados Unidos e uma aliança entre Irã e Afeganistão. Willian “Billy” Fáfia, Gustavo Medeiros e Marcelo Rocha formavam uma sólida amizade separada quando Gustavo, ingressa num programa novo do novo governo mundial para reabilitação de jovens delinqüentes.
Anos depois Fáfia e Marcelo se tornaram notórios jogadores da Seleção Brasileira, Fáfia é considerado o melhor do mundo. Um mundo, aliás, recuperado da guerra, mas muito modificado. Nele, o Brasil e a Argentina duelam pela liderança da economia mundial contra os Tigres Asiáticos. Gustavo agora é um astronauta brasileiro num contexto em que a NASA resolveu se proclamar um estado independente dos EUA. A “rebeldia” é aceita porque os ianques vivem um apocalipse nuclear e só começam a se recuperar com a ajuda dessa nova NASA. O melhor amigo de Gustavo é Mark Venture, um norte-americano sociopata e tremendamente tímido, embora com inegável habilidade como espião. Ambos foram criados neste programa de reabilitação que, na verdade, planejava criar super-soldados com inteligência e força acima da média, utilizando jovens desajustados.
Temos a personagem interessante de Mylena Brandão, cujo nome é ma fusão de Mylena Ciribeli e Cléo Brandão, duas apresentadoras notórias de programas esportivos. Trata-se de uma repórter oportunista. Workaholick bem sucedida, ela é apresentadora de TV e colunista esportiva. Ela até tem bom coração, mas é uma pessoa que sacrificou a ética para se dar bem na carreira. É atormentada, entretanto com crises de consciência devido aos problemas de ética da profissão. O estopim para a crise de Mylena, é a morte de um ex-namorado, chamado Claudio Paul Oliveira. Ele a havia convidado para fazer parte de uma investigação bombástica que denunciaria uma conspiração internacional envolvendo tráfico de escravos e crimes ecológicos através de um satélite de defesa norte-americano que estava sendo usando para incendiar grandes florestas. Mylena teve medo de abrir mão de sua carreira já consagrada e não ajudou Claudio. Meses depois ele é encontrado morto e ela recebe pelo correio parte do material que ele havia apurado. Ainda assim, ela não tem coragem levar adiante a reportagem e se limita a avisar um de seus entrevistados, Fáfia, que sua vida corre perigo.
O livro tem flash-backs da infância de Fáfia e seus amigos em 2012, mas se passa mesmo entre 2018 e 2022. A história começa mesmo quando Fáfia é submetido a um gás hipnótico e forçado a acreditar que entregou o jogo das eliminatórias para a Copa do Egito (que seria em 2018). Ele dá entrevistas dizendo que aceitou suborno para entregar uma partida decisiva contra o Uruguai e acaba em desgraça. Além disso, avisado por Mylena, ele descobre que há pessoas querendo matá-lo e, na atual conjuntura de sua carreira, pode ser qualquer brasileiro.
Abalado, o jogador se refugia em um submundo de gangues de hackers em um cenário decadente onde o Brasil recebe milhares de refugiados da Europa destruída pela guerra. Apesar do crescimento econômico do país, as desigualdades se acentuam criando verdadeiras cidades sem lei. A principal delas é Angra dos Reis que, após um grave acidente nuclear, vira uma região cercada, lembrando muito o cenário do clássico “Fuga de Nova Iorque”, 1981.
É nesta Angra apocalíptica que Fáfia vai acabar se refugiando, mas consegue respeito após salvar o líder de uma gangue de motohackers e lutar em seu lugar numa disputa de lideranças.
Em seu socorro vem Gustavo que consegue convencer Marck Venture e Marcelo a ajudar o amigo sob a argumentação que, quem deseja matar Fáfia, também está por trás de uma conspiração internacional. Descobre-se que o segredo da Nasa era a ajuda de uma raça de seres vindos de outro sistema solar. Essa raça quer oferecer a Terra a solução para diversos problemas sociais, além de tecnologia ilimitada e cura para todas as doenças, mas há um preço, o mundo precisa se organizar e resolver diversos conflitos. E Gustavo usa sem parcimônia a tecnologia alienígena para ajudar o amigo.
O livro ainda acompanha ano após ano, a recuperação de Fáfia e sua volta aos campos, além da investigação de Gustavo e Mark que apontam para Débora Farias, nada menos do que a presidente da Confederação Brasileira de Futebol – CBF, como uma das chefes de uma quadrilha internacional que será encabeçada por Richard Cotson, braço direito do presidente dos Estados Unidos.
Infelizmente, o livro era muito grosso e o autor não conseguia, na década de 90, ninguém que se interessasse por publicar aquele tijolão com uma história tão inusitada. Resolveu então, a minha revelia, reduzir e simplificar a história. O humor prevaleceu e, embora tenha gostado de algumas mudanças, o fato é que a história ficou sem pé, nem cabeça e alguns personagens foram sabotados pelo autor. O pior de tudo é que funcionou e, em 1999, o livro não só foi lançado, como elogiado. Algo que me deixou particularmente revoltado.
A Angra dos Reis pós-apocalíptica foi abandonada. Os motohackers passaram a fazer parte de torcidas organizadas e o clima apocalíptico ficou sem sentido. Outro elemento interessante, o Brasil era uma monarquia parlamentarista, reflexo do plebiscito de 92, época na qual o livro fora escrito. Esse elemento foi minimizado na nova versão, rebaixado a apenas uma citação.
Gustavo e Mark passaram a se conhecer apenas depois de velhos vivendo uma dinâmica interessante de “se odeiam e vão acabar se amando” bem clichê, mas que funciona. A idéia do “supersoldado” foi abandonada. A verdade é que a única coisa que melhorou mesmo foi a relação entre Gustavo e Mark.
O melhor do livro para mim, entretanto, sempre foram as partidas de futebol, narradas com vigor e poesia. O autor cortou metade delas, mas deixou as melhores, destaque para o primeiro jogo: Brasil e Uruguai no Maracanã, onde acompanhamos a tensão e a determinação do herói em fazer as jogadas. O elemento psicológico presente, mostrando os traumas de Fáfia e a ligação afetiva do mesmo com o futebol, são impagáveis.
Entretanto, o livro realmente saiu literalmente estuprado pelos cortes. Mylena Brandão virou uma mocinha espertinha e perdeu o arco emocional e todos os seus dilemas. Marcelo Rocha simplesmente some no livro, se tronando um personagem desnecessário. O extraterrestre Ibis – trocadilho genial com o pior time do mundo - poderia ser explorado melhor, embora suas melhores falas continuassem.
Embora o livro ganhasse um pouco mais de dinâmica, perdeu como obra literária, principalmente no seu enredo.
Outro grande trunfo do livro original minimizado na nova versão era a metalinguagem. Podendo ser lido como um roteiro de um filme dos Trapalhões que nunca existiu. A premissa, segundo o autor, era: e se os trapalhões fossem ótimos atores e recebessem um orçamento milionário?
Fáfia, o personagem principal, representaria o Zacarias. Em determinado momento do livro, tem sua cabeça raspada e chega a usar uma peruca. Todos debocham de sua risada estranha e os vilões botam sua masculinidade em dúvida.
Gustavo é o galã de beco, o Dedé Santana, conquistador, bom de briga e vive se irritando com os amigos.
Kalucha Kontê, imigrante camaronês naturalizado brasileiro para jogar no Flamengo, é uma cópia do Mussum com direito a poder ser considerado um personagem racista se o livro for julgado pela onda do politicamente correto, já que há pelo menos duas piadas envolvendo o fato do camaronês ser negro. Nenhuma entretanto, denigre a imagem dos negros e Kalucha era, na minha opinião, o personagem mais maneiro, uma espécie de mistura de Axel Foley e Principe Valente.
Marcelo Rocha é o nordestino estereotipado, mulherengo e que sempre se dá bem. Sua ligação com o Didi Mocó de Renato Aragão é a pior perda da versão nova do livro. No original, ele tem sacadas geniais, principalmente quando enfrenta zumbis canibais em Angra dos Reis, chegando a dizer uma frase ícone do Didi: “É fria! É fria!”.
Mark Venture também é uma sacada genial de Clinton neste contexto dos Trapalhões. Pois ele é o herói americano, louro de olhos azuis, presente em muitos filmes do quarteto nos anos 70, como os interpretados por Pedro Aguinaga e Mário Cardoso.
É como se um maluco pegasse para escrever um roteiro de filme dos Trapalhões, mas resolvesse criar uma história totalmente realmente forte e sombria. Os personagens estão lá, mas transformados, com neuras e manias e traumas diferentes. Mas o clima sombrio do original deu lugar a um livro quase colorido.
Enfim, deixo aqui o meu protesto, pois, embora o livro publicado em 1999 tenha sido bem recebido, principalmente pelo bom humor, não foi o Fáfia que conheci. Espero algum dia ver essa versão original publicada.
Entrevista:
1. O que deu na sua cabeça de assassinar um livro tão bom?
Eu achava o livro bom, mandei para cinco editoras e todas disseram que o livro não era bom. Então reescrevi. A versão final é elogiada até hoje, embora eu também goste mais da história original que é mais épica e mais dramática.
2. Fica óbvio para quem lê as duas versões que há algo de autobiográfico em Fáfia. Você se vangloria, inclusive de ter passado em uma peneira do Vasco em 1989. Como foi isso?
Dizem que penalty só perde quem bate. É uma máxima do futebol. Pois em peneira só passa quem faz (risos). Eu fui acompanhar um amigo no Rio fazer teste no Vasco. O pai dele falou para eu calçar uma chuteira e fazer também. Fui aprovado, mas não quis ficar. Até porque sei que sou perna de pau, tinha o físico franzino e aquele foi um dia em que estava muito, muito inspirado. Todo mundo que entende de futebol sabe que o diferencial do bom jogador é a regularidade. Porque todo mundo, por pior que seja, tem um dia de Pelé. Aquele foi o meu. Nunca me iludi que teria futuro ali. Mas contar marra eu vou poder para o resto da vida (risos altos).
3. Hoje podemos notar muitas semelhanças entre a vilã da história, a presidente da CBF, Débora Farias e as acusações de corrupção a Ricardo Teixeira. Foi uma crítica?
Foi uma critica aberta a presidência da CBF, mas não a Ricardo Teixeira, que apesar de tudo, sempre teve a minha simpatia. Eu queria criticar o Otávio Pinto Guimarães que foi, para mim, o pior dirigente que a entidade já teve. Era uma direção amadora, que acusou Zico de ser o responsável pela falta de títulos da Seleção. Marcava excursões do Brasil a Europa com datas coincidentes as das corridas de Fórmula 1 apenas para acompanhar o jogo. O campeonato Brasileiro tinha uns 40 clubes e ninguém entendia as regras direito. Não acho que Ricardo Teixeira seja santo, mas mesmo que ele seja preso hoje, por corrupção, ou coisa parecida, ainda assim terá deixado a CBF muito melhor que encontrou.
4. O que acha das recentes denúncias de corrupção na Fifa? De certa forma você acertou na previsão?
Qualquer sistema de administração que se propõe a ser democrática precisa revezar a liderança para evitar o que acontece na CBF e na Fifa. Não dá para ter uma pessoa 20 anos no poder. Isso cria vícios. Cria problemas. A Fifa cresceu muito com a liderança de João Havelange, mas deveria se reformar internamente. Acho louvável, por exemplo, a insistência em preservar elementos do esporte, mas chegamos a um momento em que todo mundo tem uma câmera. Acho que o maior prejudicado nessa história é o árbitro que tem seus erros externados para bilhões de pessoas no mundo, sendo que não tem acesso a tecnologia que o resto do planeta tem. É preciso que a Fifa tivesse acesso a gente nova para poder se abrir a idéias novas. Veja, por exemplo, a regra de não poder mais atrasar a bola para o goleiro, matou o futebol da Argentina que usava muito esse recurso. É uma pena que uma entidade tão prestigiada como a Fifa sofra com esses problemas. Espero que eles se modernizem como um todo, principalmente no que se refere ao modelo de gestão.
5. Apesar das minhas críticas, o Fáfia publicado em 99 tem muitos fãs, inclusive fãs argentinos, é verdade?
Sim, o livro fez sucesso em Búzios, onde tenho muitos amigos argentinos. E foi levado para a terra dos hermanos. Acho que isso se deve a visão positiva que o livro passa dos argentinos que, embora sejam protagonistas da final da copa contra o Brasil, não são mostrados como vilões. Ao contrário, o livro tem literalmente um protesto contra o preconceito entre os dois países. O livro é divertido e bem humorado. Tem muita gente que gosta mais do Fáfia do que do Hegemonia. É um livro mais solto e menos pretensioso. Quando fizemos o projeto “Pensando o futuro de Macaé”, eu costumava sortear uns Fáfias e mostrar o trailer. Os meninos se empolgavam muito. Mais até do que com o Hegemonia.
6. Por que você abandonou a Angra dos Reis apocalíptica da primeira versão do livro? Ela voltaria numa eventual publicação do Fáfia original?
Primeiro porque eu resolvi que teria que diminuir o livro e simplificá-lo. Depois porque visitei a Usina de Angra e concluí que o tipo de acidente nuclear que eu descrevia no livro era implausível. Mas hoje eu apenas ajustaria alguns detalhes e colocaria Angra de volta. A inspiração foi a música do Renato Russo.
7. Você pretende publicar a versão original do Fáfia algum dia?
Talvez. Teria que revisá-la também. Foi escrita naquela máquina mágica chamada “máquina de escrever” que imprime ao mesmo tempo em que a gente digita. Teria que passar a limpo quase 300 páginas e duvido que vá ter tempo para isso. Além do mais, acho que seria melhor publicar às vésperas de uma copa do mundo e não agora que ainda faz pouco tempo que o Brasil foi eliminado de maneira tão pouco digna da Copa do África.
*Pedro Antônio Roberto Ramos é formado em Letras pela UFRJ e trabalha há dois anos como Técnico de Segurança no Trabalho em plataformas de petróleo