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    Guerra aérea e literatura - com ensaio sobre Alfred Andersch

    W. G. Sebald

    Companhia das Letras
    2011
    136 páginas
    4h 32m
    ISBN-13: 9788535918847
    Português Brasileiro
    3.8
    39 avaliações
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    Num ensaio contundente, Sebald radiografa a estranha ausência na literatura alemã do pós-guerra de um tratamento realista do drama humano dos bombardeios empreendidos pelos aliados que destruíram muitas cidades da Alemanha. W. G. Sebald, mais conhecido por seus romances que mesclam de maneira singular a ficção e a memória histórica, esmiúça um tema tabu nesse ensaio polêmico: a dificuldade dos escritores alemães do pós-guerra em lidar com a destruição das cidades do antigo Reich. As centenas de milhares de vítimas civis, os órfãos sem rumo, as cidades reduzidas a escombros, as legiões de desabrigados vagando pelas estradas, nada disso foi enfrentado de modo convincente na literatura alemã, que, quando tocou no assunto, em geral recorreu a uma estilização estéril ou a uma retórica sentimental e religiosa que acabaram por esvaziar a tragédia. Sebald não se limita a traçar o diagnóstico dessa grave omissão, mas tenta entender seus motivos, que, ao que tudo indica, têm a ver com o recalque do trauma nazista, com os sentimentos de culpa e humilhação durante o período de frenética reconstrução material do país que ficara em ruínas depois da guerra. Completa o volume um estudo sobre o escritor alemão Alfred Andersch (1914-80), tomado por Sebald como caso exemplar do intelectual que teria se preocupado mais em reescrever o seu passado e retocar a sua imagem moral do que descrever o que de fato ocorreu durante o Terceiro Reich.

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    Aguinaldo Medici Severino23/09/2011Resenhou um livro
    3 (Bom)

    guerra aérea e literatura

    Foi ao ler don Javier Marías que soube pela primeira vez de W.G. Sebald. Em um de seus artigos de jornal ("El amargo valor de algunos muertos", incluído no Harán de mí un criminal) ele falava da morte de "Max" Sebald em um acidente automobilístico; da amizade entre eles - que era apenas epistolar afinal de contas; de algumas de suas afinidades; e do fato de Sebald ter o título de duque de Vértigo, do imaginário reino de Redonda de Marías (sim, Javier Marías é rei - Xavier I, mas esta é uma história longa demais para ser contada aqui e pode ser encontrada em pelo menos dois livros dele: Negra espalda del tiempo e El monarca del tiempo). Já mais recentemente don Fernando Landgraf perguntou-me se eu conhecia Sebald, pois estava maravilhado com as descrições arquitetônicas do "Austerlitz". Motivado por ele decidi começar a ler com alguma disciplina os livros de Sebald. "Guerra aérea e literatura" é uma espécie de exegese às avessas, pois ao invés de interpretar um texto literário, Sebald fala da ausência, na literatuta alemã, de reflexões ou mesmo meras descrições do impacto gerado pelos bombardeios massivos sobre o território alemão durante a segunda grande guerra, na cultura e literatura do pós guerra. Milhares de pessoas morreram em função desses bombardeios e milhões de pessoas passaram a vagar enlouquecidas pelo território alemão. O que se encontra no livro são discussões sobre as maneiras como memórias individuais, coletivas e culturais são afetadas por experiências que extrapolam o limite do suportável, pelo horror vivenciado que nunca é superado de verdade, pelo trauma espiritual terrível, inimaginável, inconcebível. Apesar das milhares de cidades alemãs totalmente destruídas terem sido reconstruídas com esmero, pouco do horror da destruição total da paisagem, memória e passado dos indivíduos foi elaborado literariamente (se é que pode ser elaborado literariamente), nem afetou o auto entendimento contemporâneo da cultura e sociedade alemãs. Originalmente os dois primeiros capítulos do livro foram apresentados na forma de conferências acadêmicas. Não me parece exatamente um trabalho canônico de historiografia, mas uma enunciação de impressões sobre a destruição, bem como a exposição dos relatos compilados que tratam da destruição. Segundo ele os relatos que encontrou são demasiado místicos, retóricos (no sentido de que haveria uma justificativa mística para a destruição, uma espécie de punição divina) ou demasiado estilizados (estilizados com expressionismo), artifícios que retiram algo da força dos argumentos. O cinismo e a lógica das guerras são descritas muito objetivamente. Gostei da descrição de "Bomber/Butcher Harris", o comandante inglês responsável pelos bombardeios, e também de um argumento utilizado na época que poderia ser colocado na boca de qualquer um dos senhores da guerra de nosso tempo (Obama, Netanyahu, Sarkozy, Ahmadinejad, Putin, Jiabao): Depois que tamanho esforço de guerra foi empreendido, tamanho montante de inteligência, capital e força de trabalho acumulados na forma de aviões e bombas, eles precisavam ser utilizados. Não haveria sentido em desviar um ataque caso uma grande bandeira branca fosse agitada pelos alemães, após tal emprego de mão de obra. São sempre só negócios, afinal de contas. No terceiro capítulo do livro ele reflete sobre as reações desencadeadas pelas conferências. Ele não chega exatamente a uma conclusão, mas provoca o leitor a pensar sobre o assunto. O livro se completa com um "estudo de caso", um ensaio sobre Alfred Andersch, um sujeito nascido em 1914, que permaneceu na Alemanha durante a guerra, e que tinha a pretensão de tornar-se o maior escritor alemão de seu tempo. Andersch faz uma interpretação dos acontecimentos da guerra, notadamente aqueles relacionados com a guerra aérea, útil aos argumentos de Sebald. O texto de Sebald fica no limite da crueldade. Andersch é um escritor tão sofrível e artificial que apenas a exposição explícita de suas idéias e projetos literários faz o leitor lamentar-se da existência do sujeito. A dupla moral (tanto na vida pessoal, quanto na produção literária) de Andersch é questionada duramente por Sebald. E ele generaliza, alertando os leitores: "Quando um autor moralmente comprometido reivindica a neutralidade valorativa do campo estético, seus leitores deveriam tomar algum cuidado". Como não gostar de um escritor tão objetivo e seminal? Uma nota final: A Penguin inglesa acrescentou à esses dois textos (Air war and literature e Between the devil and the deep blue sea: On Alfred Andersch) dois outros (Against the irreversible: On Jean Améry e The Remorse of the heart: On memory and cruelty in the works of Peter Weiss), intitulando o livro de "On the natural history of destruction". Elias Canetti já nos ensinou que não existe nada mais humano que nossa afinidade com a destruição e a morte. [início 21/09/2011 - fim 22/09/2011] "Guerra aérea e literatura: Com um ensaio sobre Alfred Andersch", W.G. Sebald, tradução de Carlos Abbenseth e Frederico Figueiredo, São Paulo: editora Companhia das Letras, 1a. edição (2011), brochura 14x21 cm, 131 págs. ISBN: 978-85-359-1884-7 [edição original: Luftkrieg und Literatur: Mit einem Essay zu Alfred Andersch (Fischer Verlag) Frankfurt (2002)]

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    Winfried Georg Maximilian Sebald

    Nasceu em Wertach im Allgäu em 1944, filho de uma família católica do interior da Bavária. Depois de estudar literatura alemã em Freiburg, lecionou em Manchester, na Inglaterra, de 1966 até 1970, quando se transferiu para a Universidade de East Anglia, onde permaneceu até sua morte, num acidente de carro, em 2001. Poeta, ensaísta e tradutor, Sebald é reverenciado no mundo todo por seus livros de ficção, contemplados com numerosos prêmios literários em diversos países.

    24 Livros
    23 Seguidores
    Allgäu, Alemanha

    Winfried Georg Maximilian Sebald