Hóspede -

    Pardal Mallet

    Editora Três
    1974
    140 páginas
    4h 40m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    "Como no relógio da parede soassem quatro horas, Nenê, num movimento de desânimo, deixou escorregar-lhe pelo corpo abaixo o jornal que estava a ler distraidamente."

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    Maria Carolina16/12/2025Resenhou um livro
    2 (Razoável)

    O hospedeiro da mediocridade: Quando o marido é tão BETA que a traição vira reparação histórica (e a gente, estranhamente, ainda aplaude o Talarico).

    Não sei por que, mas criei a expectativa de que este livro seria um terrorzinho para variar o clima... daí vocês conseguem ver o quão delulu eu sou. Enfim, parece que quem criou a ordem desta coleção é uma pessoa estranhamente metódica e tem um hiperfoco em determinados assuntos. E o hiperfoco da vez são, pasmem... esposas que traem. Santo Deus! É a terceira vez seguida que caímos no mesmo drama doméstico, confirmando que a curadoria da coleção parece obcecada pela dinâmica do adultério como se não houvesse mais nada sobre o que escrever no Brasil do século XIX. A história nos apresenta Pedro, o marido bem-casado, porém medíocre ao extremo, que além de não prestar atenção o suficiente na vida tranquila e incrível que tem, ainda tem o desprazer de menosprezar os interesses da esposa. Sua mulher é Nenê, a típica "bela, recatada e do lar", uma boa esposa e mãe dedicada, de gostos honestos e simples. Completam o núcleo a sogra, Dona Augusta, e o filhinho do casal, Pedroca. O conflito começa com a chegada de Marcondes, o galã de vida torpe e galanteador. Como vocês já podem imaginar, Marcondes é o hóspede que Pedro insistiu tanto em levar para dentro de casa. Para piorar, o "beta" do Pedro fica o tempo todo humilhando a esposa e, praticamente, servindo os sentimentos e os gostos dela de bandeja para o amigo. Obviamente, não seria nada difícil para Marcondes conquistar até as formigas da casa com um pai de família como o Pedro por perto. E dito e feito: Pedro tanto menosprezou e Marcondes tanto insistiu, que dizer que a sedução aqui foi um jogo é quase um eufemismo. Pedro deu um empurrão em Nenê para os braços do talarico, e o leitor quase grita: "Aleluia, já não era sem tempo!". Diferente das outras esposas que li anteriormente, Nenê era realmente uma ótima companheira; ela não tinha aquele impulso de luxúria ou o tédio existencial maligno das outras. Mas e o Pedro? Pedro é o típico "heterotop" inseguro, misógino e desinteressado na vida que construiu. Ele é tão medíocre em seu papel de marido que acaba empurrando a própria felicidade para o abismo. De tanto o "Pedro Beta" falhar, Nenê acaba se apaixonando por Marcondes. E Marcondes, o talarico canalha e Don Juan como nenhum outro, aproveita a situação em cheio, sem qualquer remorso ou hesitação. O quão errática é a atitude de Pedro e Marcondes me deixou com a sensação de que aqui, apesar de estar errada também, Nenê teve seus sentimentos apagados e usados. Ela é tratada como um mero objeto, uma "boneca de luzinhas" que um homem apagava e o outro acendia quando queria. A crueldade dessa narrativa torna a história cansativa e monótona; senti que muitos capítulos poderiam ser facilmente apagados e o livro poderia ter sido um simples conto. Talvez a escolha dessa obra para a coleção tenha sido apenas para dar a perspectiva de um mau marido, um amigo canalha e uma esposa menosprezada. Apesar de bem chata, não nos vejo tendo evoluído muito desse ponto: o famoso quarteto... gaslighting, desprezo, abuso emocional e comportamento misógino, continua aí. Nossa grande evolução foi apenas ter conseguido nomear as práticas que Pardal Mallet já descrevia. Honestamente, foi uma leitura bem medíocre. Sobre a classificação indicativa, eu diria que é para maiores de 14 anos, por abordar dinâmicas de abuso psicológico, manipulação emocional e o tema do adultério. Não há a crueza visceral de um naturalismo pesado, mas a toxicidade das relações apresentadas exige uma percepção mínima sobre o que é um comportamento abusivo e desrespeitoso em um casamento. Para encerrar, digo que foi uma leitura típica do Pedro: medíocre, chatinha e com muita soberba para estar em uma coleção que se pretende tão importante. É aquele tipo de livro que você termina e sente que o autor teve uma pretensão muito maior do que a entrega real da história.

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