João Gomes Mariante, psicanalista há mais de 60 anos, faz uma abordagem inédita na bibliografia nacional, uma obra literária e filosófica. Encerra conceitos profundos de psicanálise e faz uma análise detalhada do inconsciente dos três líderes políticos que foram protagonistas da História do Brasil, e em especial do Rio Grande do Sul, desde a Revolução de 1930. Identifica ímpetos suicidas nos três e, como se já não fosse bastante, contempla o psiquismo de personagens da política desde a antiguidade até os dias de hoje. Ao leitor interessado, servirá como um espelho da psiquê de cada um. Caudilhos, coronéis ou democratas, famosos ou anônimos, todos os seres humanos têm mente e têm medo da morte, ou da vida. "O propósito fundamental de _Três no Divã_ é de, através da psicologia profunda, que a psicanálise condensa, interpretar os segredos do inconsciente de cada um."
Três no divã - Getúlio Vargas, Oswaldo Aranha e Flores da Cunha
João Gomes Mariante
Um no divã e dois acompanhantes
O livro bem que poderia se chamar "Um no divã e dois acompanhantes", já que 80% das páginas deste, referem-se a Getúlio Vargas. A imagem da capa já nos dá uma pista desse foco, já que Vargas está sentado no divã e Flores da Cunha e Oswaldo Arenha encontram-se a trás do móvel, ambos em pé. Para quem gosta de história política ou se interessa pela biografia dos três políticos, o livro é uma excelente leitura. Este, conta-nos a história política dos três grandes gaúchos, analisando-os sobre o prisma da psicanálise, formação do autor João Gomes Mariante. O autor relata-nos de uma forma interessante, trazendo conceitos da psicanálise, principalmente de Freud, como Getúlio Vargas foi "automistificando-se", ou seja, como foi construindo sua imagem, através dos longos anos em que foi Presidente da República, intensificando-a e moldando-a a seu gosto, principalmente durante o período do Estado Novo, com o auxílio do DIP - Departamento de Imprensa e Propaganda, e culminando no ato de seu suicídio, em 24 de agosto de 1954. De uma forma brilhante, Mariante argumenta que Getúlio Vargas era tão narcizista, que preferiu morrer, ao ser visto como um fracassado, a ser esquecido pelo povo, ao qual ele se denominava pai. Getúlio preferiu morrer como um herói a continuar vivendo como um covarde. Sua personalidade jamais lhe permitiria tornar-se um covarde e logo esquecido. Ele decidiu "sair da vida para entrar na história", e após o tiro do revólver, consolidou-se definitivamente como um mito, e alcançou seu objetivo: entrou para a história e gravou seu nome na eternidade. É interessante perceber a personalidade de Getúlio através das palavras de Mariante. O ex-presidente foi considerado uma Esfinge, um enigma que que confundia e surpreendia tanto seus aliados quanto seus adversários. Getúlio era homem de palavras ambíguas, personalidade paciente e absoluto controle emocional. De acordo com o autor "Vargas foi um dos estadistas mais frios de que se tem notícia" (MARIANTE, 2010, p. 196). O que mais impressiona, tanto através da leitura quanto através do estudo da história de Getúlio Vargas, é a busca pela compreensão de como um presidente que instalou uma ditadura, retirou a liberdade da população, perseguia, torturava e matava adversários, censurava a imprensa, mandou para a morte, uma mulher grávida, pôde tornar-se um herói nacional, e posteriormente um mito. Mariante afirma que Getúlio tinha o dom da psicologia das massas como nenhum outro presidente. Ao torna-se e consolidar-se como "pai dos pobres", valeu-se da magia desta identidade e entrou para a galeria de mitos. Como um grande ator, Getúlio sabia como ninguém, lidar com a ignorância da massa, os órfãos da Nação. Estes, que até os dias de hoje, idolatram-no e perpetuam seu mito, sua imagem, sua história. MARIANTE, João Gomes. Três no divã: Getúlio Vargas, Oswaldo Aranha e Flores da Cunha. Porto Alegre: JÀ Editores, 2010.
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