Em ciência existem observações e interpretações de observações. Conjuntos de interpretações levam à produção de teorias. Esta é uma definição demasiado simples, mas nos oferece uma idéia plausível da ciência em geral, da ciência praticada por Allan Kardec, nos primórdios do Espiritismo, e da ciência praticada por Stanislav Grof e descrita em "Quando o Impossível Acontece".
Mas, então, por que o subtítulo esclarece o leitor de que o livro contém “histórias extraordinárias que desafiam a ciência”? Se é ciência que Grof pratica, onde entra o desafio? Afinal, a ciência não deveria aceitar fatos e evidências observadas por cientistas, incorporar as suas consequências e prosseguir em sua missão?
A resposta é negativa, pois a ciência não funciona como uma unidade de esforços de pesquisa e teorização acerca dos fatos - sobre os quais todos os cientistas, em tese, concordariam. A ciência é, antes, um vasto território onde as teorias disputam espaço e tentam sobreviver. Na qual, muito embora possam estudar o mesmo conjunto de fatos, os cientistas defendem diferentes visões e conclusões, pois, além de partirem de pressupostos diferentes, dão aos resultados interpretações divergentes.
Atualmente temos uma ciência materialista em franco desenvolvimento, para quem a realidade é aquilo que se percebe somente com os cinco sentidos: tato, visão, audição, paladar e olfato. Este é um dos pressupostos básicos do paradigma científico dominante, isto é, do modelo do qual derivam tradições e práticas específicas dos pesquisadores da atualidade.
A ciência atual e o seu mundo
Grof caracteriza as linhas gerais deste “velho paradigma”, no epílogo do livro, quando diz: “Em 1956, na época de minha formatura na Faculdade de Medicina da Universidade Karlova, em Praga, eu compartilhava com a comunidade acadêmica e com minha cultura a imagem do universo e da psique humana forjada pela ciência materialista ocidental. Esta visão do mundo baseava-se na suposição metafísica de que o universo é um sistema mecânico estritamente determinista e no qual a matéria tem importância principal. A vida, a consciência e a inteligência eram vistas como derivadas mais ou menos acidentais da matéria, em essência, acasos que aconteciam em uma seção insignificante do universo gigantesco após bilhões de anos da matéria inorgânica inerte”.
Essa passagem resume a concepção que hoje predomina na física e química. Vejamos agora como Grof mostra como o velho paradigma trata dos tópicos da biologia. Ele diz mais abaixo no mesmo texto que “o principal mecanismo da evolução na natureza era a sobrevivência do mais apto e a estratégia militante do gene egoísta. Isto parecia explicar o que pareciam ser aspectos característicos do comportamento humano – a busca pelo interesse egoísta na competição com outros e à custa destes, como se manifesta na vida pessoal e no cenário econômico, político e militar coletivo”.
Como se vê, as ciências humanas, como a psicologia e a sociologia, também aderem ao modelo materialista, compreendendo as ações do homem e o comportamento social como fruto da “seleção natural”, que preserva os mais fortes e elimina os mais fracos. Grof prossegue: “Essa imagem sombria da natureza humana foi adicionalmente reforçada pelos achados da psicologia em profundidade, cujo pioneiro foi Sigmund Freud e seus seguidores que afirmava que todo nosso comportamento era guiado por instintos básicos animais”.
Preconceito instituído
E não se tratava apenas da ciência, pois a religião e a espiritualidade também tinham um lugar nessa visão de mundo: “Freud e seus seguidores viam as crenças religiosas e os interesses espirituais de qualquer espécie como reflexos da superstição, ingenuidade, pensamento mágico primitivo, processo primário e comportamento obsessivo compulsivo (...). As experiências diretas de dimensões espirituais da realidade eram vistas como manifestação de grave doença mental”.
Em "Quando o Impossível Acontece", Grof fala sobre um novo paradigma, onde o que era impossível para o velho modelo torna-se possível – tanto que acontece e continua acontecendo, como se descobre ao ler os 52 casos narrados no livro.
O autor enfatiza a importância de sua primeira experiência de estado alterado de consciência provocado por ácido lisérgico (LSD), na década de 50, quando essa droga recém-descoberta era objeto de pesquisa e estava disponível para uso clínico. A continuidade das experiências o conduziu a importantes desdobramentos para sua vida pessoal e profissional, como o abandono de uma abordagem materialista e cética sobre a existência; uma mudança de entendimento sobre a natureza e os limites da memória; uma nova compreensão dos chamados “estados psicóticos” - que passam a ser vistos, por ele, como “crises de abertura espiritual” -; e a decisão de dedicar sua vida ao estudo dos estados ampliados de consciência.
Com a proibição do uso terapêutico do LSD, Grof desenvolveu uma técnica – que ele utiliza até hoje – para induzir a esses estados: a respiração holotrópica, a qual combina respiração, música e trabalho corporal.
Fragmentos formam o todo
Muitos dos casos descritos apontam para evidências sobre a imortalidade da alma, sobre um passado espiritual dos seres humanos, sobre a comunicação com seres desencarnados, e sobre a evolução como finalidade de nossas experiências no mundo físico. Como o próprio Grof afirma no prefácio da obra: “O denominador comum de todos esses eventos foi o fato de que não deveriam ter ocorrido se o universo fosse como a ciência tradicional o retrata – um sistema material estritamente determinístico governado por cadeias de causas e efeitos”.
É importante relatar que o livro não traz apenas situações de expectativas alcançadas e de sucessos obtidos. Isto parece que acrescenta, às narrações de Grof, a segurança de não terem partido de um fanático, interessado em destacar unicamente os elementos favoráveis à sua tese e em omitir o que possa enfraquecê-la, mas sincero ao expor suas conclusões e justificações para as mesmas.
Em "Quando o Impossível Acontece", Grof reúne momentos importantes de sua carreira na psiquiatria e de sua trajetória pessoal ao lado de Christina, sua esposa. Neles percebemos como estão entrelaçadas a visão do cientista, diante de fatos revelados por sua pesquisa e trabalho em consultório, e a visão do ser humano descortinando um mundo ignorado que o leva a rever toda sua compreensão acerca da vida e de seu propósito. Trata-se, pois, de uma jornada profissional e, ao mesmo tempo, existencial, narrada com paixão, mas fortemente orientada pela razão.