Depois de escrever sobre adolescentes/jovens adultos, sobre a família e sobre as mulheres, Michael Cunningham foca agora num personagem masculino maduro, Peter Harris. Ele é um marchand que vive em Nova York, que vê a estabilidade do seu casamento e o conforto da sua vida serem abalados pela presença do seu cunhado, Mizzy, este muito bem munido de armas poderosas: juventude e beleza. Enfrentando a crise da meia idade, Peter Harris será colocado à prova.
Os capítulos funcionam como se fossem contos, todos têm uma unidade, tem um começo, meio e fim, por assim dizer. O primeiro é sobre o casal nova-iorquino, Peter e Rebecca, num taxi, indo a uma festa; o segundo é uma visita de Peter ao Metropolitan, acompanhado de uma amiga marcada pela idade e pela doença; o terceiro, o excelente “O irmão dela”, conhecemos a história da família de Rebecca, e o encantamento que isso causa em Peter; o quarto, “A História da Arte”, acompanhamos a parte burocrática do trabalho de Peter (e este capítulo é meio chato; felizmente, só este). E assim por diante, numa melhora crescente.
O leitor acompanha o envolvimento (apaixonamento?) de Peter por Mizzy, seu jovem, belo e transgressor cunhado, enquanto este tenta se livrar do seu vício em drogas. Mas, ao contrário do protagonista, o leitor fica (pelo menos eu fiquei) com um pé atrás, desconfiado se Mizzy está realmente correspondendo ao sentimento de Peter, ou se tudo não passa de uma artimanha, para ter um trunfo, uma carta escondida na manga.
Michael Cunningham acerta demais quando permeia seus textos com reflexões (“Será que jamais damos a alguém o presente que a pessoa realmente deseja?”), impressões sobre a arte e a não-arte, sobre as perdas e ganhos da vida, sobre os desencontros e desconexões com pessoas queridas (com o irmão Matthew, prematuramente falecido; com a filha Bea, que foi morar longe dos pais), sobre a estranha atração pelo wild side, sobre a sensação de ter fracassado em algum ponto, por mais privilegiado que se seja; sobre essa coisa às vezes tão confusa que é viver. E faz isso me maneira brilhante, arrebatadora. Não é um livro para se ler às pressas, de maneira descuidada. Pois muita coisa é sugerida, nada é muito explícito, há muito nas entrelinhas.
Naquele famoso livro sobre um garoto que não queria crescer e que também se chamava Peter, há um trecho assim:
"Tome cuidado, ou o destino vai acabar lhe oferecendo uma aventura que, se você aceitar, vai mergulhá-lo na mais profunda tristeza."
É este o dilema que Peter Harris vai ter que enfrentar: aceitar - ou não - a aventura que o destino lhe colocou nas mãos.
Michael Cunningham é um escritor extraordinário. Quem já leu "Uma casa no fim do mundo", "Laços de Sangue" ou "As Horas" sabe do que estou falando. Ele errou a mão em "Dias Exemplares", mas voltou a acertar neste "Ao Anoitecer".