Barnabé, de uma família de judeus mais ou menos convertidos ao cristianismo, passou a sua infância numa aldeia do concelho de Lamego, junto ao rio Varosa. Foi aí que entrou em contacto pela primeira vez com os seus fantasmas, um deles o espírito de um seu amigo que morrera afogado no rio. Com dezasseis anos, parte para Lamego a trabalhar na oficina de um primo de sua mãe, antigo espião de el-rei e privado de fidalgos. Por uma questão de saias, o primo põe-no fora de casa e o rapaz parte para Lisboa onde leva uma vida de vagabundo até ser escolhido para integrar a tripulação da armada prestes a zarpar para a Índia. Enquanto no livro de contos Barnabé é o cozinheiro do capitão, no romance é um dos rapazes de fretes de Paulo da Gama. A infância de Barnabé remete para a infância de quase todos nós. Infância que se vai perdendo com as novas gerações de crianças nascidas e criadas nas cidades onde não há um rio para conhecer a morte, onde não há um pomar para assaltar à fruta. No romance, a biografia de Barnabé entrecruza-se com a de Vasco da Gama. Ao mesmo tempo que se contam as vicissitudes da infância e da adolescência de Barnabé, relatam-se os primeiros anos de Vasco na vila do Cacém com seu irmão Paulo. Não pretendeu Mário Cláudio relatar cronologicamente a vida do grande navegador português e a sua primeira viagem à Índia. Para isso há os livros de história. Tanto mais que a narração é de certo modo heterodoxa, escapando-se às convenções aceites pela tradição e pela investigação histórica. Mais do que um herói, surge-nos um Vasco da Gama simplesmente humano, preocupado com a sua fazenda, com as suas rendas de homem rico. Que não deixa contudo de sofrer com a morte do irmão tuberculoso ao chegar, ou de se irritar com certos comportamentos dos seus homens de marinhagem, ou de se preocupar com a sorte da armada estando detido em Calecute.
