Assim que tem Brahnac em mãos, o leitor sente um primeiro impacto: o volume do livro. Sim, Cátia conta a aventura de Clarice em mais de 700 páginas (alguns afirmam que jovens não curtem livros grossos, mas essa crença já foi desmentida há tempos, inclusive pelas inúmeras fãs adolescentes de Paula Pimenta, escritora de sucesso que tem livros de até 600 páginas). Já tendo se acostumado ao peso de Brahnac, o leitor passa a dirigir sua admiração para a qualidade da publicação: a capa tem laminação brilhosa e uma gravura belíssima e cheia de significado; a diagramação e a fonte escolhida são perfeitas; o acabamento é em costura...
A história pode ser dividida em duas partes. Na primeira, que ocupa pouco menos de 1/3 do livro, entramos em contato com a rotina adolescente de Clarice. Acompanhando o dia a dia da personagem, conhecemos seus amigos, sua escola, seus anseios e desejos... Em determinado momento, surge o misterioso Alan, um professor de arco e flecha que faz Clarice balançar entre o desprezo e o encantamento, tornando a trama bem interessante. Bia, melhor amiga da protagonista, fecha o trio central da primeira parte, que é permeada pelas estranhas e instigantes visões de Clarice. O elo com o segundo segmento do livro é feito por uma série de revelações bombásticas, ocasião em que a protagonista percebe viver em um mundo de ilusões. Tudo à sua volta parece ser uma espécie de encenação, o que deixa o leitor bastante surpreso.
A segunda parte do livro conta a incrível aventura de Clarice em terras brahnaquianas. Nesse ponto, vê-se que a sinopse deixa a desejar, pois a história é mais incrementada do que o resumo na contracapa faz supor. Após ser revelada a Clarice sua verdadeira identidade, ela precisa encarar a missão de encontrar sua irmã gêmea, raptada pelo demônio-mor de Brahnac. Para isso, a jovem precisa inicialmente recuperar sua memória sobre a Terra Mágica. É aí que a aventura realmente começa. A protagonista e seu séquito vão montando um verdadeiro quebra-cabeças em meio a criaturas míticas (elfos, fadas, centauros) para conseguir esse primeiro objetivo, cuja conclusão permitirá combater as forças do mal. Nesse trecho do livro, vemos que a qualidade da obra não está apenas em seu aspecto físico. Percebe-se a (acentuada) preocupação da autora com a narrativa. O texto, apesar de sua espontaneidade, é montado com muito apuro e pesquisa, contando até com enigmas, que precisam ser entendidos e desvendados. Só é lamentável ver a pena segura e elegante de Cátia ser maculada por um jovialismo extremo e desnecessário. Encontramos muitos “tá”, “tô”, “tão” (estão) e até “praquele” e “cê” (você), inclusive em momentos totalmente desnecessários, como este: Da próxima vez ela vai tá morta em uma bandeja (p.510). Mas, relevando-se esse detalhe e as falhas de revisão (não tem jeito: a revisão é o grande calcanhar de aquiles da nova literatura nacional), pode-se dizer que Brahnac é um livro grandioso.
Os personagens importantes que cercam a protagonista – como Alan e Andrew – vão sendo desnudados de forma surpreendente em um enredo complexo e atraente, tudo envolvido por um clima que remete levemente às histórias de Tolkien (autor de O Senhor dos Anéis). O leitor, aliás, precisa se acostumar com a grande quantidade de personagens no livro. No final, a esperada guerra épica é permeada por acontecimentos paralelos, o que a torna bem mais que uma simples narrativa empolgante. O fim (?) do vilão também merece destaque, pois a forma como tudo acontece é totalmente inesperada. Poética até.
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