Num momento em que o consumo é a medida de todas as coisas, o território da poesia parece cada vez mais reduzido. Mas em vez de transformar os versos em tl'ineheiras' de-1Julto ao passado, o interessante é fazê-Ios veículos de uma visão crítica sobre sua própria identidade e seu tempo, como mostra a professora de literatura e escritora Maria Esther Maciel em "Vôo Transverso - Poesia, Modernidade e Fim do Século XX" (Sette Letras e Fale/UFMG). Anunciada pelos românticos, junção entre criação poética e reflexão crítica confirmou-se a partir de Baudelaire, tornando-se uma prática bastante disseminada no início deste século. "Hoje, muitos desses poetas-críticos estão nas universidades, e essa aliança criação-reflexão continua, só que já não mais com aquela intensidade moderna", diz Maria Esther. Ela lembra que durante algum tempo e até mesmo por efeito das vanguardas e dos valores que nortearam a modernidade - alguns poetas levaram essa prática crítica às últimas conseqüências. "Neste final de milênio, eles estão atentando mais para outros aspectos da criação, como a intuição", ressalta. A autora observa que o poeta sempre teve uma ligação contraditória em relação à sua época. O avanço da revolução tecnoló gica, por exemplo, gerou uma função marcadamente utilitária atitude dúbia: se por um lado os autores buscaram reforçar a autonomia dos poemas diante da realidade, por outro passaram a incorporar os recursos que a própria tecnologia oferece. “O contexto atual da poesia está marcado pela presença efetiva dos meios de comunicação e do consumismo – e é em relação a isso que o poeta se detabe”, explica a escritora. Maria Esther reconhece que é inevitávél que a poesia, como qualquer outra arte, sofra processo de mercantilização. "O poeta depende das editoras e da midia para se fazer conhecido", justifica. "No entanto, é necessário saber aproveitar isso tudo de forma criativa." Ela sustenta que a poesia sempre foi uma prática marginalizada, já que não tem função marcadamente utilitária e pragmática. No entanto, salienta que os poetas sempre foram importantes para constituição dos povos. Basta lembrar de Homero, Camões, Pessoa, Drummond e Borges, só para citar alguns. "Como disse Octavio Paz, as socidades decaem e a poesia permanece", revela.
