Em toda a a história do Brasil, 37 pessoas já foram empossadas como Presidentes deste país; dentre várias idiossincrasias próprias, é sabido que só um deles tinha aspirações literárias e poéticas (Jânio Quadros tem um livro de contos, não podemos esquecê-lo), - sendo o único que publicou um romance, desejei ver se esse tal de José Sarney é bom escritor.
Minha curiosidade nasceu pela impressão de que, por muitos anos, era uma moda falar que seus livros eram ruins, e sentia que essas críticas eram passionais demais para serem levadas à sério. Não vivi a chamada Era Sarney, então creio que eu possa ser a pessoa mais imparcial possível (a imparcialidade é um mito, mas isso é outra história).
Saraminda é um livro que tem muita coisa boa e muita pataquada. Seu ponto mais interessante - e foi o que mais me impressionou - é a habilidade de usar a linguagem literária em prol da narrativa (há vários escritores cascudos que falham e/ou não usam o fato de estarem escrevendo UM LIVRO em prol deles, - a crítica recente da Aurora Bernardini toca nessa ferida da literatura contemporânea); tem vários flashbacks e artimanhas muito bem usadas.
Em contrapartida, é um livro que não sabe lidar com todos os seus personagens (existe uma Tábua de Personagens ao final que consta 95 nomes, isso mesmo, noventa e cinco nomes!), bem como não sabe dosar quem terá mais participação da trama; o personagem Kemper, por exemplo, teve um arco interessantíssimo, mas sua chegada no meio do livro fez com que eu tivesse a sensação de que ele surgiu como uma espécie de tapa-buraco.
É interessante, por mais que tenha páginas demais, sendo uma história que poderia ser resolvida com metade das páginas.