Morte na Pérsia -

    Annemarie Schwarzenbach

    Tinta da China
    2008
    144 páginas
    4h 48m
    ISBN-13: 9789728955656
    Português

    Morte na Pérsia, livro escrito na primeira metade dos anos 30 mas que se manteria inédito até 1995, é um relato de viagens como nenhum outro. Annemarie parte para tentar escapar à ascensão alarmante do nazismo na Europa mas também à família, à infelicidade amorosa e à sua própria depressão. Empreende assim uma viagem em que se depara com a impossibilidade radical de fugir de si mesma. As paisagens persas adquirem as tonalidades da melancolia e da angústia da escritora. É esta viagem, simultaneamente por estrada e pelos atalhos mais recônditos da alma humana, que faz de Morte na Pérsia um livro comovente. Carlos Vaz Marques «Annemarie Schwarzenbach é uma grande personagem trágica. Transformou a sua vida numa fuga para a frente, entre Europa, América, Ásia e África, devorada pela impossibilidade do amor, pela morfina e pela escrita.», Alexandra Lucas Coelho, Público

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    Ana Claudia Aymoré Martins20/07/2020Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    O deserto infindável de Schwarzenbach

    Filha de uma aristocrática família da belle époque suíça, historiadora de formação, fotógrafa e jornalista prolífica, arqueóloga e aventureira que percorreu das estepes russas aos desertos do Oriente Médio, amiga íntima de intelectuais, cientistas, escritores e artistas os mais brilhantes de seu tempo, dona de uma personalidade marcante que a levou, desde muito jovem, a assumir corajosamente uma performance de gênero masculina, e de um magnetismo peculiar que fez, a certa altura, Thomas Mann definir sua beleza como a de "um anjo devastado", e condenou Carson McCullers a uma avassaladora e não-correspondida paixão - Annemarie Schwarzenbach nos deixou, como legado escrito, apenas recentemente redescoberto pelos leitores e pela crítica, o testemunho de seus fracassos e desesperanças, da solidão, do medo e da incompreensão que refletem sua consciência do "mal-estar da civilização" (termo cunhado por Freud à época em que Annemarie escrevia seu Morte na Pérsia). A cada vez que partia da Europa em direção a um ambiente desconhecido e frequentemente inóspito, como o descrito neste relato de viagem, a autora empreende uma frustrada tentativa de fuga - de uma mãe autoritária, de decepções amorosas, da ascensão do nazismo, de seus próprios males íntimos, como a depressão -, que se torna a matéria-prima fundamental de sua escrita: "É de falsos caminhos que este livro trata, e o seu tema é a desesperança." . As areias escaldantes e as antigas cidades de uma civilização há muito derrotada, cenário do que nomeia como "desolação magnífica", são, nesse livro, a exteriorização de um herói (ou uma heroína) que já inicia sua jornada sob o signo da derrota, por não ser capaz de impedir, ou de observar passivamente "a grande discórdia que separa os povos e envenena os homens", por não ter força suficiente para conter a mão do homem que a agarra pelo braço para fazer-lhe mal, por não ser possível simplesmente unir-se à mulher amada sem obstáculos, por não vencer o medo opressivo de um inimigo que não consegue sequer nomear. A própria vida, em Schwarzenbach, é esse labirinto mais perfeitamente incognoscível de que nos falara Borges, o deserto: "Para onde nos voltaremos? À nossa volta, aridez apenas, cordilheiras cinzentas de basalto, desertos amarelos cor de lepra, vales lunares sem vida, ribeiros de greda e rios de prata, onde boiam peixes mortos. Para onde? Ah, a perplexidade, asas cortadas da alma!"

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