Menos para mim, mas ainda sim um desafio e tanto ler Paul Celan em inglês (próximo passo, alemão!) Havia dito que nenhum livro novo esse ano superaria o Don Juan, bem... Romenos sempre me pegam com a calça curta. Um dos poucos escritores que conseguem fazer você sentir na pele o trauma que ele transforma em escrita; jamais desejaria isso a ninguém, mas ter passado pelo que ele passou permitiu ele escrever Möhn und Gëdachtines (Ópio e Memória), que, a meu ver, é uma das se não a mais linda, genial e perturbadora coletânea de poemas que eu já li. Em todas as reuniões de seus escritos, Celan usa de maneira engenhosa diversos artifícios rítmicos, simbólicos e as vezes até estruturais da escrita para palpabilizar as suas angústias mais terríveis (frisando aqui que eu não pretendia ler este livro, apenas queria ler o Möhn und Gëdachtines porque eu já havia lido as outras coletâneas pela editora 34, mas caiu tanto no meu gosto que eu acabei relendo tudo em inglês ð
). Em destaque especial para o primeiro poema (Tallow Lamp), com sutis comparações bíblicas de catástrofes com a entrada do campo de concentração (além da introdução da estrutura peculiar de poesia do Celan), o Memory of France, com a melancolia quanto aos pais de Celan que o assombrou até o fim da vida representado por nomes, cheiros e tatoo em fluxo, o Your Hand full Hours, representação mórbida das relações humanas no campo e o famoso Todesfuge, a canção da morte premeditada, lenta e sombria em uma métrica e ritmo igualmente perturbadores.
Nota: 11/10 - O Melhor livro que eu li esse ano e concerteza o mais profundo (se desconsiderar a releitura de Ulisses), absolutamente pretendo reler e já entrou pro meu pódio sem nem pedir licença. Me preparei pro choque de uma bicicleta mas recebi um caminhão pipa lotado.
"Black milk of daybreak we drink it at nightfall"
(Leite Negro da Madrugada nós o bebemos de Noite)