Platão possui alguns diálogos um pouco mais obscuros, os chamados apócrifos, que são de provável autoria de discípulos, diretos ou indiretos, que não tinham, de forma alguma, a intenção de prejudicar a obra de seu mestre, mas sim de acrescentar, aprofundar e mesmo resumir diálogos maiores e mais conhecidos. O apócrifo Minos, por exemplo, resume As Leis, enquanto o diálogo Da Justiça, resume A República, que gira em torno de descobrir o que é a justiça. Há também um outro texto chamado Definições, que é uma espécie de dicionário de termos platônicos, o que é muito interessante.
Outros diálogos, como Teages, Da Virtude e Axíoco, no entanto, possuem uma característica pouco comum em Platão, o salto lógico em prol de uma certa narrativa mítica, um claro misticismo. Platão valorizava o mito e a “nobre mentira,” mas o que guiava o mito era a razão por de trás dele, não o contrário. Em Teages, Sócrates diz que o conhecimento verdadeiro só pode ser atingido através do Daimon; em Da Virtude, diz que a virtude não pode ser ensinada e nem é natural, mas que ela é uma graça divina, um dom do deus — algo que qualquer cristão concordaria; já em Axíoco, Sócrates conforta um homem a beira da morte, dizendo que os justos entram em um paraíso e os injustos são castigados no Hades — uma nova narrativa do mito de Er da República, mas desta vez com ainda mais características proto cristãs, já que ignora em absoluto a reencarnação. De fato é o que fica ainda mais evidente. Alguns desses apócrifos apontam para um certo platonismo decadente, empobrecido de racionalidade e preenchido pelo místico, o que não deixa dúvidas de que foi esse platonismo empobrecido que serviu de fonte para o cristianismo e o gnosticismo vindouro.
Paulo, o apóstolo mais erudito e instruído, que conhecia muito bem a filosofia, tendo inclusive direito a cidadania romana, escreveu que “morrer era lucro,” (Filipenses 1:21), que é a exata conclusão que Axíoco chega após ser convencido por Sócrates que a vida carnal era má e perversa, e que a verdadeira vida era a vida a pós a morte, a vida eterna para onde iriam os justos.
“Só posso agora desprezar a vida, já que devo partir para uma morada melhor.” — Axíoco 372a