Maria Sabina - a sábia dos cogumelos

    Álvaro Estrada

    Martins Fontes
    1984
    164 páginas
    5h 28m
    ISBN-10: 853361893X
    Português Brasileiro

    "Há um mundo além do nosso, um mundo que é próximo e invisível. E há onde o deus vive, onde o inoperantes vivem, os espíritos e os santos, um mundo onde tudo tem acontecido e tudo é sabido. Esse mundo fala. Tem uma línguagem própria. Eu relato o que ele diz. O cogumelo sagrado faz exame, me pega pela mão e traz-me ao mundo onde tudo é sabido. É eles, os cogumelos sagrados, que falam em uma maneira que eu posso compreender. Eu pergunto-lhes e eles me respondem. Quando eu retorno da viagem que eu fiz, tiro a prova com ele, eu digo o que ele me disse e o que me mostrou." MEDICINA INDÍGENA (Maria Sabina foi uma médica indígena do estado de Oaxaca, México, que curava com os cogumelos sagrados.) Seguramente que não só o ouro e as riquezas naturais do México Antigo, nem só a cultura e a arte mesoamericanos causaram grande assombro aos religiosos e conquistadores espanhóis chegados à essa terra no século XVI; senão também a medicina indígena (composta por uma “maravilhosa coleção” de vegetais e plantas alucinógenas) foi motivo de atenção, estudo e – condenação – por parte dos escritores, botânicos e médicos do Ocidente na época colonial de México. As repressões do Tribunal do Santo Ofício, que em um princípio experimenta e ingere ololiuhqui,péyotl e teonanácatl (sementes, cactos e cogumelos respectivamente, e alucinógenos todos) e mais tarde as condenações desde o púlpito que se prolongaram por séculos, fizeram com que os médicos indígenas levassem a um plano privado – digamos secreto – o rito e a adoração das plantas mágicas. Em nossos dias, estas práticas “demoníacas” dos índios, tem desaparecido conforme o avanço da cultura ocidental no México. Um fenômeno parecido tem extinguido costumes similares em outros povos asiáticos e americanos. Mas é em Huautla – população situada na serra mazateca de Oaxaca – aonde os investigadores tem encontrado uma mina nesse tipo de práticas nativas, nas que o cogumelo – ao que os investigadores tem agregado o adjetivo de alucinógeno – é parte medular da religião indígena na que se diz que o antigo teonanácatl – Carne dos Deuses na época prehispânica – tem poder para curar todas as enfermidades, e também proporciona a força mística que cria a linguagem elevada e esotérica do chaman. Introdução do livro “A Vida de Maria Sabina, a sábia dos cogumelos”., escrito por Álvaro Estrada.

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    Ângela Arraya picture
    Ângela Arraya25/07/2011Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Sabedoria e pureza de um mundo que já não existe

    Maria Sabina foi uma curandeira mexicana, talvez última zeladora de um conhecimento que se diluiu no tempo. Alguns fragmentos dessa sabedoria foram preservados neste livro rico e comovente, que mostra tanto o trabalho espiritual que ela realizava como xamã, poderosa e respeitada, quanto o sofrido cotidiano material e familiar, explorada até o fim de seus dias por filhos e netos parasitas ou alcóolatras, em contraste com o grande prestígio que alcançou, ainda em vida, por seu trabalho com o cogumelo Teonanácatl (Psilocybe Mexicana). Uma verdadeira aula para quem procura entender o uso de enteógenos em contextos tradicionais, viagem xamânica, canalização de mensagens, função dos ícaros(canto), estruturas de pajelança, cosmovisão indígena sobre doença e cura, êxtase místico, medicina natural e muito mais. Vale mais a pena que três teses de antropologia juntas, emocionante e didática como nenhum texto acadêmico conseguiria ser. Uma das coisas que mais me encantaram foi o começo do livro, quando ela conta que quando era criança, ia pelos campos com a irmã procurar os cogumelos. Acontecia que ao final da tarde, o avô e a mãe as recolhiam dos campos e as levavam no colo para casa, às vezes aos risos, às vezes aos prantos, mas nunca as repreendiam por comer os "meninos santos". Pureza, é a única palavra que me ocorre para descrever.

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