O livro Teatro Grego, da Otto Pierre Editores, apresenta três tragédias e uma comédia. No entanto, percebo minha inclinação e gosto convergindo, em especial, para duas obras: Antígona, de Sófocles, e Medeia, de Eurípides. Em Antígona, uma irmã zela pelo corpo de seu irmão e preza pela realização dos rituais fúnebres, o que me proporcionou um vislumbre da importância dessa tradição naquele contexto. Pude, inclusive, estabelecer conexões com a Eneida, já que ambas as obras evidenciam a relevância dos ritos na passagem para o mundo dos mortos. Também notei, nessa tragédia, reflexos significativos da política e da cidadania. Os trechos “Não há cidade que pertença a um só homem” e “Só mesmo num deserto terias o direito de governar sozinho” instigaram-me profundamente. Tais ideias são expressas por Hêmon, filho de Creonte e noivo de Antígona, que demonstra um pensamento mais consciente do que o de seu pai, ao reconhecer que as leis não são inflexíveis. Embora devam ser respeitadas, as leis impostas por Creonte, naquele contexto, feriam as leis dos deuses, o que era inaceitável na mentalidade da época. A inflexibilidade do rei está ligada, sobretudo, à sua soberba: Creonte sente-se ultrajado por ser confrontado por uma mulher e recusa-se a ouvir as palavras do próprio filho, a quem considera tolo e imaturo. Seu orgulho e preconceito conduzem-no a uma sucessão de infortúnios e perdas demasiado pesadas para carregar no peito. De modo semelhante, percebo na tragédia de Eurípides um mesmo ponto de desprezo pelo feminino. Medeia é uma mulher implacável, disposta a grandes sacrifícios para alcançar seus objetivos, e ainda assim é subestimada por seu marido e pelo rei. Este a expulsa da cidade com seus dois filhos, enquanto Jasão, pai das crianças, atribui a ela a responsabilidade pelo infortúnio e não demonstra qualquer esforço para protegê-las, abandonando-as ao destino junto à mãe. Dentro de tais condições, é compreensível que a mente de Medeia tenha se desestruturado, levando-a a cometer tamanha atrocidade contra os próprios filhos. Vejo esse último crime como o ápice de sua loucura. Além disso, estabeleço uma conexão dessa tragédia com O Barril de Amontillado, no que se refere ao tema da vingança, sintetizado no bordão latino: Nemo me impune lacessit.


