Eu nasci sob o signo de virgem, em 5 de setembro de 1964, em Sobradinho-DF. Sou filho de pai camponês e de mãe profes-sora em colégio do interior do Estado de Goiás. A maior parte da minha infância foi numa fazenda na beira do rio Arraial Velho. Sob os olhos de Deus e da natureza, nadava pelo rio e corria pelos matagais. Hoje eu sei mais do que nunca como é fascinante a vida de uma criança nos braços da mãe natureza. Se eu pudesse criaria meus filhos do mesmo modo que fui criado. Me sentia como um rei, conhecedor dos pássaros, dos arvoredos, do rio, suas corredeiras e suas águas murmurantes, e até de curvas magníficas. Como todo encanto tem seu fim, fui enviado para a cidade de Planaltina-DF para prosseguir nos estudos. Essa fase de "aculturamento urbano" foi uma das mais difíceis em minha vida. Aquele menino que não tinha medo de nada passou a ter medo de tudo. Aprendi a ler a linguagem daquele mundo, mas não entendia os signos da cidade. Minha irmã, em sua monografia, resumiu tudo numa só frase: "Meu irmão foi o que mais sofreu neste processo de transição campo/cidade." Eu rezava, esperando por um feriado, um final de semana prolongado ou pelas férias escolares, para que pudesse voltar correndo para a vida no campo que eu tanto amava. Mas minha vida foi passando e seguindo seu curso natural, até que eu entrei para uma escola agrícola, pois parecia o sonho mais fecundo de alguém que tinha vindo da roça. Ao concluir meus estudos no Colégio Agrícola de Brasíla, trabalhei um pouco nessa área, dando assistência técnica em algumas fazendas; mas como a vida da gente algumas vezes parece mais um paradoxo, há quase dezessete anos, mediante concurso, passei a fazer parte da Polícia Civil de Brasília, na capital federal. E por falar em paradoxo, o meu refúgio durante uma importante parte do tempo que vivi na cidade foi mergulhar na Filosofia, nascendo em meu peito a vontade mais potente que conheci: a neces-sidade incoercível de escrever. De repente, me vi poeta antes do vermelhidão do arrebol. Agora me sinto sobrepairando a Via-Láctea. Portanto, o modo de vida camponês ainda está latente em meu modo de viver: cada verso de catira, cada moda de viola me fazem reviver aqui e agora o menino caipira que fui outrora, fazendo emergir em minhas poesias a força da comunhão homem/natureza. Homem cingido, Mãe-Terra dessacralizada. Não há maior sofrimento em ver a minha roça desnuda, sem nenhum pé de Ipê, e o meu Arraial Velho com suas águas minguadas. Por isso, planto versos como quem planta esperança, para deixar um mundo melhor de se viver. O Autor
Vialacteano -
Emerson Vaz Borges
Thesaurus
2009
96 páginas
3h 12m
ISBN-13: 9788570628312
Português Brasileiro
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