Este livro é uma coletânea de crônicas (uma reunião de palestras feitas pelo autor na África, no Brasil e na Europa), publicada originalmente em 2009. Apenas a crônica que dá nome ao livro não faz parte de suas palestras. "E se Obama Fosse Africano?" é um artigo que foi publicado no Jornal Savana de Maputo (Moçambique).
Embora o tema central do livro "E se Obama Fosse Africano?" seja indiscutivelmente a África, o autor Mia Couto também aborda questões universais como ignorância, corrupção, ódio racial e religioso, autoritarismo e destruição do meio ambiente. E trata cada um desses temas com uma habilidade extraordinária. Envolvi-me profundamente em suas palestras, admirando a forma como ele vê e descreve a África.
Gosto da forma de pensar do autor e de sua habilidade em contar histórias, apesar de não concordar com tudo o que diz. Aprecio como ele une sua perspectiva de escritor e cientista, transformando uma palestra que poderia ser enfadonha em uma experiência envolvente que nos mostra o multiculturalismo de seu continente. Ele desmistifica problemas e sugere mudanças necessárias para que a África possa se modernizar, sempre de acordo com as necessidades de seu próprio povo, mantendo suas raízes culturais e preservando seu passado e história, sem a intromissão de novos exploradores que buscam implantar um desenvolvimento que seja apenas uma cópia e reflexo deles mesmos.
O biólogo e o escritor se mesclam para transmitir uma mensagem necessária, descortinando Moçambique e, consequentemente, a África para nós, habitantes de países estrangeiros. Até recentemente, nossa visão da África e de seus problemas estava restrita à narrativa do olhar europeu e americano.
Algumas crônicas nos mostram os problemas típicos de todos nós, seres humanos, mas com um foco nas características do povo moçambicano e africano. Ler essas crônicas me fez refletir sobre como Mia Couto pensa e vê o mundo, ao mesmo tempo em que divulga a cultura de seu país e a importância da educação para o crescimento e desenvolvimento de seu continente.
Adorei as crônicas em que Mia Couto fala sobre a influência de nossos grandes autores brasileiros em sua vida e na literatura africana, como Jorge Amado e João Guimarães Rosa. Achei especial a crônica que descreve as armadilhas que dificultam a tentativa de tornarmos o mundo mais nosso e mais solidário, e gostei especialmente da que aborda a importância da língua para a formação cultural dos povos. Além disso, todas as palestras deste livro são uma janela para vermos a África pelos olhos desse autor moçambicano, permitindo-nos começar a entender a complexidade das tradições e diversidades existentes nesse imenso continente.
Comecei a ler esse livro por causa de uma conversa com a Flávia, uma amiga e colega de leituras aqui do Skoob. O que era para ser apenas uma olhadela se transformou em meu primeiro contato com a escrita e os pensamentos desse cultuado escritor que eu estava muito curiosa para conhecer. Agradeço o incentivo da Flávia e do Fábio Nunes, sem os quais não teria despertado tanto minha curiosidade para ler este livro e outros do autor que pretendo ler em um futuro próximo.
"E se Obama fosse africano?' foi uma leitura interessante e elucidativa sobre aspectos da cultura africana e a forma de pensar e escrever do autor. Recomendo.