Deus é Brasileiro
Os três contos que compõem esse simpático livro são brasileiríssimos, cheios da prosa fácil e gostosa de João Ubaldo Ribeiro, oferecendo o melhor da contação de causo. Divertidos e com aquela falta de cuidado no prosear que conquista qualquer um, mas que só o brasileiro tem, os contos apresentam figuras e situações vindas de um olhar sensível e observador para a existência. O primeiro já me ganhou na justificativa do nome: Alandelão de la patrie. Hilário e com uma lição claríssima sobre a natureza e o condicionamento das coisas, é o típico causo roceiro que poderíamos ouvir numa manhã no Sr Brasil com Rolando Boldrin. O segundo já não tem tanta força, acaba sendo mais uma conversa de bar que atrai, atrai, mas permanece rasa. Tem seu charme, mas não se compara aos outros dois. Mas é o terceiro - e também o que dá nome ao livro - que conquista QUALQUER leitor. A vinda de Deus para convidar um descrente a se tornar santo é maravilhosamente absurda, engraçada e reflexiva. O protagonista tem reações divertidas e coerentes com os receios do homem simples ante figuras mais imponentes e os diálogos são cheios de sabedoria, mas ditos de forma simples e convidativa. Toda a construção do conto é bem feita, dosa bem o fantástico e o comum, mas é o trecho final que nos pega desprevenidos, quebra as expectativas e oferece um pensamento tão bonito, tão sensível que vai ficar com o leitor por muito tempo. Tenha você a fé que tiver - ou até a falta dela -, esse conto vai te aproximar do divino com um sorriso imenso no rosto.

