As Teorias da Cibercultura - Perspectivas, questões e autores

    Francisco Rüdiger

    Sulina
    2011
    318 páginas
    10h 36m
    ISBN-13: 9788520505991
    Português Brasileiro

    O presente volume é a primeira síntese, ao menos em língua portuguesa, das principais reflexões teóricas que vêm procurando sistematizar o fenômeno de forma mais abrangente, com vistas a fornecer ao interessado pontos de vista orientadores para seu conhecimento e avaliação. Valendo-se de ampla pesquisa, o autor apresenta um painel claro e objetivo das diversas teorias da cibercultura, sem deixar de relatar suas ligações originárias deste campo com a trajetória da filosofia social da técnica e de comentar criticamente as proposições que as têm marcado em seu respectivo contexto de desenvolvimento.

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    Silvia Ferreira03/03/2012Resenhou um livro
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    Um resumo do que há de melhor e pior

    Atualmente, identificar as influências da cibercultura na dinâmica social e caracterizá-las em referenciais teóricos sólidos são grandes desafios da pesquisa em comunicação. Afinal, a produção científica sobre o assunto se entrelaça e se expande aos moldes da inteligência coletiva que ela própria se dispõe a explorar. Nesse cenário acadêmico, o pesquisador brasileiro Francisco Rüdiger, já dedicado à história das ideias, da teoria social e do pensamento tecnológico, presenciou a popularização da internet como plataforma de comunicação cotidiana na década de 90 e assumiu a tarefa de sistematizar conceitos no livro Introdução às teorias da cibercultura (Ed. Sulina, 2003). Com uma abordagem didática sobre as perspectivas do pensamento tecnológico contemporâneo, a obra apresentou um roteiro de estudos com vistas à reflexão crítica sobre a técnica em vários campos de estudo. Oito anos depois, com uma perspectiva histórica mais segura, mas não menos instável, Rüdiger lança um trabalho mais completo e ambicioso. As Teorias da Cibercultura (Ed. Sulina, 2011) mantém o didatismo de seu embrião, mas avança ao incluir novas teorias e reposicionar as antigas. Trata-se, segundo ele, de uma chave de leitura pela qual o leitor pode encontrar um roteiro histórico e conceitual para situar suas dúvidas e desenvolver suas próprias reflexões, desde que esteja atento também ao contexto histórico não compreendido pelo relato. Os primeiros “estranhamentos” de uma nova realidade No primeiro capítulo, Rüdiger traz aspectos preliminares sobre as relações entre cultura e técnica na era das massas, as polêmicas e embates teóricos próprios de um contexto de rupturas. Para tal, toma como referência uma matéria sobre a irrupção da internet na vida cotidiana publicada na Revista Time, em 25/07/1994, chamando a atenção para o fenômeno que finalmente deixava de ser restrito ao universo da ficção científica. Nessa matéria, ele identifica três linhas de abordagem: A dos populistas tecnocráticos, representando o entusiasmo e a tendência tecnófila de pesquisadores como Dan Gilmor e Henry Jenkins; A dos conservadores midiáticos, que reunia intelectuais em defesa da mídia tradicional contra o “culto amador”, como Dominique Maniez e Andrew Keen; E a dos cibercriticistas mais interessados em refletir sobre as conexões entre cibercultura e poder nas esferas individual e social, como Kevin Robins e Lee Siegel. Após percorrer as três trajetórias, Rüdiger conclui que tais expressões representam apenas um cenário high tech da cultura de massas e da indústria cultural, sem alteração de suas estruturas de sentido originais. Com essa perspectiva, o autor parte para o segundo capítulo resgatando dois exemplares da tradição mitológica-literária ocidental para enquadrar novas correntes sobre o pensamento técnico. Os prometeicos representam a tendência minoritária ao pessimismo cultural, tendo como referência Philippe Breton, para quem a cibercultura não oferece mais poder aos consumidores, e sim às empresas. Já os fáusticos trazem a tendência majoritária ao otimismo societário como o de Chris Anderson, segundo o qual a era das escolhas individuais é emancipatória e impulsiona subculturas criativas favoráveis ao desenvolvimento. Traz ainda a discussão de Langdon Winner sobre o determinismo tecnológico presente nas duas frentes e a consequente emergência de uma abordagem neomarxista da cibercultura, proposta por Douglas Kellner e Andrew Feenberg. Esta última reflete sobre aspectos positivos e negativos das novas tecnologias, considerando a forma mercadoria como elemento articulador das experiências no ciberespaço, e não o império da técnica ou da espontaneidade humana. Para avançar os estágios reflexivos sobre o pensamento tecnológico, Rüdiger parte para o terceiro capítulo alertando sobre a distinção entre os termos técnica e tecnologia, buscando argumentos nas raízes históricas da antiguidade. A partir deles, aponta a ingenuidade dos modernos que definem tecnologia como ciência da técnica uma vez que, originalmente, a técnica tinha a ver com a práxis criadora individual, um conceito engolido pela metamorfose histórica que vinculou a modernização a processos políticos e ideológicos tecnocráticos. Interação homem-máquina, da cibernética à rede social A partir do quarto capítulo, Rüdiger inicia uma série de abordagens teóricas sobre a interação homem-máquina em diferentes frentes de pensamento: desde a teoria cibernética de Norbert Wiener, evoluindo para a reflexão filosófica de McLuhan sobre o significado coletivo do progresso tecnológico até a figura histórica do ciborgue proposto por Donna Haraway. Depois, deixa os horizontes filosóficos e tecnológicos para refletir sobre conexões entre o sujeito social e uma estrutura cada vez mais complexa que “cobra seu preço político”. Assim, no quinto capítulo a teoria da sociedade em rede de Manuel Castells ganha atenção especial para reflexões sobre a era da informação. Em seguida, Rudiger traz análises de autores marxistas que se atentam à presença da tecnologia no modo de vida cotidiano, indo além dos argumentos sobre as forças produtivas e do discurso publicístico para mostrar que o efeito da internet sobre a vida social não é linear. Cibercultura na era dos extremos Estabelecidas as raízes centrais da discussão sobre a cibercultura, Rüdiger passa, daqui em diante, a relatar suas correntes mais específicas, para não dizer mais extremas ou polêmicas. A primeira delas, tratada pelo autor como uma tecnotopia liberal humanista, traz as ideias do francês Pierre Lévy à medida que as ironiza e as desqualifica como ciência. Nas palavras dele, “a vocação de pequeno empresário e redator de catecismos new age prepondera amplamente sobre a de pesquisador em atitude reflexiva” (p. 161). Fica até mesmo difícil entender por que Lévy ganha um capítulo inteiro na obra, já que seu trabalho recebe adjetivos como “discurso de Poliana” e “carente de autocrítica”. O espaço, até divertido aos simpatizantes da mesma opinião, mais à frente se transforma em um orgulho formalmente contido pelo trabalho do brasileiro André Lemos que, segundo Rüdiger, “tem o mérito de relativizar o pensamento tecnológico que subjaz ao expansionismo do fenômeno” (p. 182). Depois, volta com uma ponta de acidez ao falar sobre a tecnoapocalipse de Kroker, para quem vivemos “o fim da história humana e o início da história virtual”, e a dromocracia de Eugênio Trivinho, que trata de uma suposta superação da forma política pela forma tecnológica de existência. Para Rüdiger, tratam-se de fantasias radicais, mas ele prefere não descartá-las como fez com Lévy por julgar que tais proposições podem dizer muito acerca de nossa época histórica. A mesma sorte não tiveram os ícones das “ciberteodiceias”, termo utilizado por Rüdiger para caracterizar um mero catecismo para a era digial, segundo o qual a cibercultura é terreno de busca e encontro com a divindade. O autor também reserva um capítulo sobre o esquerdismo cibernético, que tem no Manifesto Hacker de McKenzie Wark (2004) seu maior expoente. Ao afirmar que o marxismo militante e libertário pode ser reatualizado para a época da cibercultura, seus adeptos preconizam que “os hackers possuem, virtualmente, a missão política de libertar os fluxos de informação dos limites que lhe impõe o atual vetor” (p.172), referindo-se aos que controlam e exploram a privatização da criação intelectual. À linha de pensamento de Jean Baudrillard, Rüdiger dá o nome de “humanismo tecnófobo esotérico”, caracterizado por uma “retórica bombástica sobre a capacidade que a técnica possui de nos tomar qualidades”. Mesmo considerada apocalíptica e, portanto, digna de ressalvas, trata-se de uma das poucas menções favoráveis do autor a uma concepção extremista da cibercultura. Depois, partindo para uma perspectiva pós-humanista, de Friederich Nietzsche a Nancy Hayles, o autor caracteriza o movimento como uma projeção fantasiosa e ao mesmo tempo intelectualizada de uma cibercultura mais radical. No entanto, deixa claro que, se a vida já foi guiada por normas religiosas, políticas e morais, e hoje se pauta por princípios tecnológicos, tal perspectiva pode ajudar a explicar o que podemos vir a ser a partir de projetos de redefinição ontológica. Nos últimos capítulos, o autor apresenta tendências conservadoras que não se restringem à defesa da velha mídia, mas discutem as eventuais perdas que o avanço da cibercultura representa para a formação integral da espécie. Destaca autores como Mark Slouka e Sherry Turkle e traz as visões do cientista computacional Jaron Lanier, que advoga em favor de um humanismo digital ao lado de Jean-Marc Mandosio, para Rüdiger uma espécie de humanista desesperançado. Depois de visitar todos os extremos, ele parte para o movimento tecnorrealista (1998), que elege a missão de ir além da crítica e do utopismo, da ingenuidade e do extremismo. Por fim, promove o diálogo entre os mesmos extremos em uma ideia de “criticismo radical”, examinando as relações entre tecnicismo e fantasia no contexto da cibercultura. Apesar de mostrar claras discordâncias em várias partes do livro, Rüdiger não negligenciou nenhuma linha de pensamento, nem mesmo as que julgou desprovidas de rigor científico. O panorama lhe permitiu definir a cibercultura “como uma formação prática e simbólica, que expressa e, às vezes, articula para o homem comum as circunstâncias e antagonismos humanos e sociais” (p. 285). Um contexto provocativo tanto para as cadeiras acadêmicas metodologicamente fundamentadas quanto para as vítimas do movimento caótico do cotidiano, entregues à imersão irrefletida, sem preocupação com o que o novo mundo tem a conspirar. Sem conhecer tantas teorias, apenas participam da aparente inteligência coletiva na velocidade exponencial da rede, têm a impressão de que essa rede cria vida própria e lhes impacta como um projétil. E ainda temos coragem de chamar aquela outra bala, tão modestamente objetiva, de mágica.

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