Não importa quantas vezes eu leia Gabriel García Márquez, sempre saio de suas páginas com aquela sensação de que acabei de conversar com um gênio que também é, de alguma forma, meu amigo. "Eu não vim fazer um discurso" não é ficção, não é realismo mágico, não é romance. É, antes, um mergulho direto no pensamento, na voz e na presença dele.
O livro reúne discursos que ele proferiu ao longo de sua vida, e cada um deles é uma janela para entender não apenas o escritor, mas o homem por trás da pena. Percebo a genialidade dele de maneira crua, sem a “proteção” de personagens ou tramas, e isso só me deixa mais fascinada. Há uma lucidez impressionante quando ele fala sobre a América Latina, um misto de dureza e poesia, que nos faz sentir que ser latino-americano é um ato político por si só.
Talvez por isso, sempre que leio Gaba, eu sinta algo quase revolucionário, uma energia que não sei explicar, apenas sentir. Ele escreve (e fala) como quem conhece profundamente a alma do nosso continente, suas dores e esperanças, e nos lembra que a literatura também é resistência. Não é um livro para quem procura histórias fictícias, é um livro para quem quer conhecer o próprio Márquez, suas ideias, paixões, ironias e compromissos. E eu, que raramente me interesso pela vida de autores, abro uma exceção apenas para ele e Kafka. Porque certos escritores não são apenas lidos: eles são vividos.