Jacques Lacan - Esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento

    Elisabeth Roudinesco

    Companhia das Letras
    1994
    564 páginas
    18h 48m
    ISBN-13: 9788571644120
    Português Brasileiro

    Autora da monumental 'História da psicanálise na França', Elisabeth Roudinesco delineia aqui um fascinante retrato da vida e do pensamento de Jacques Lacan, um mestre cujas contradições e ambigüidades, tanto em sua prática psicanalítica quanto em seu ensino teórico, evocaram ou a adesão beata ou a execração sumária. Distante de qualquer empenho mitificador, Roudinesco realiza um exemplar levantamento das circunstâncias sociais, culturais e pessoais em meio às quais Lacan elaborou sua radical retomada do pensamento freudiano - uma aventura teórica que o levaria a influenciar como poucos o horizonte conceitual e institucional do movimento psicanalítico. E, fiel aos meandros de um pensamento brilhante, faz plena justiça a uma das mais fecundas e complexas trajetórias intelectuais de nossa época.

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    Vida e obra de Lacan

    A obra de Elisabeth Roudinesco Jacques Lacan, esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento (2008) já se tornou um clássico não apenas para os interessados em psicanálise, mas sobretudo para aqueles interessados na História da formação das ideias, uma vez que sua biografia de Lacan mergulha na história francesa do século XX e articula a formação do sistema lacaniano com todos os movimentos de vanguarda e as correntes de pensamento com as quais ele travou contato. É muito interessante notar o modo como Roudinesco constroi o personagem Lacan, sem esconder suas contradições, seus descompassos e inadequações, sem ‘passar o pano’ como dizemos em linguagem coloquial. Toda a biografia do autor é descrita tal como ela ocorreu, ou, pelo menos, tal como seu rigor científico e historiográfico lhe permitiu narrar. Um primeiro fato que gostaríamos de destacar é o liame inequívoco existente entre vida e obra, melhor dizendo, a imanência que existe entre a formação do sistema de pensamento de Lacan e os fatos de sua vida, a constituição de sua subjetividade implicada no contexto social e político que a França atravessava no entreguerras. A própria chegada de Lacan à psicanálise não foi por acaso, mas fruto de um profundo desconforto com as teses predominantes no interior do discurso psiquiátrico da época. O embate e a posterior absorção dos pressupostos freudianos vinculam-se a essa negação dos valores e da prática científica predominante nos anos 30. A própria tese de doutoramento de Lacan “Da psicose paranoica em suas relações com a personalidade” (1932) - conhecida como o ‘caso Aimée’ -, é fruto desse descontentamento face à compreensão da psiquiatria oficial em relação à psicose. Não à toa, alguns pressupostos filosóficos presentes nesta tese retomam um autor fundamental na formação de Lacan: Baruch Espinosa. Diz Roudinesco sobre a presença de Espinosa na tese de Lacan: “Tudo se passa como se a tese de Lacan estivesse inteiramente colocada sob o signo de Spinoza e como se a doutrina proposta por Lacan fosse inspirada pelo mesmo espírito que a obra de Spinoza” (p.78). Uma de nossas linhas de investigação nesse breve texto é tentar compreender esse exato sentido do ‘espírito de Spinoza’ que, segundo Roudinesco, é o mesmo espírito de Lacan da época de seu doutoramento, quando ele ainda estava demasiado associado à ciência psiquiátrica, mas já despontando alguns descontentamentos relacionados à compreensão da natureza de determinados transtornos mentais, tal como a psicose. Até esse momento de sua vida, Lacan possuía uma concepção monista da personalidade e estava vinculado em meados dos anos 30 e que se associava tanto a um certo materialismo quanto a uma concepção antropológica - não ainda a Lévi-Straussiana. Tal concepção teve uma recepção positiva sobretudo nos espaços de vanguarda, como os surrealistas, os comunistas e um setor do campo psiquiátrico mais arejado, justamente porque “situava a paranoia - a loucura em geral - não mais como um fenômeno deficitário decorrente de uma anomalia, mas como uma diferença ou uma discordância em relação a uma personalidade normal”. Portanto, em 1932, Lacan concebia a psicose paranoica como um desvio da personalidade dita normal, colocando em novos termos a problemática relação entre o normal e o patológico, prenunciando ao seu modo a tese clássica de Georges Canguilhem em sua obra dos anos 40. Corpo e mente eram compreendidos como uma unidade complexa e não como duas substâncias distintas. Essa complexidade expressa a própria infinidade atributiva da qual ela é constitutiva e portanto, a patologia só pode ser concebida como um sub-produto da normalidade, não como algo substancialmente distinto desta. No entanto, essa concepção espinosana da personalidade, expressa em sua tese de doutorado de 1932, não durou por muito tempo. Ainda nos anos 30, Lacan encontra em Hegel novos pressupostos filosóficos para pensar a subjetividade humana em suas diversas clivagens. E foi a figura de Alexandre Kojève quem introduziu Lacan na ‘Fenomenologia’ hegeliana e a ciência da experiência da consciência. Interessante notar que a fenomenologia esteve presente no contexto filosófico dos anos 30 e 40 na França, sobretudo na figura de Jean-Paul Sartre. Embora Lacan e Sarte tenham sido próximos no período da Resistência, toda a produção teórica de Lacan, sua apropriação da fenomenologia e sua posterior aproximação de Heidegger será no sentido de criticar as concepções sartreanas de consciência e liberdade. Esse primeiro contato de Lacan com a fenomenologia, no entanto, foi através da ‘Fenomenologia do Espírito’ de Hegel. Assim, podemos compreender os múltiplos emaranhados filosóficos que constituem esse período formativo do pensamento lacaniano. No mesmo momento de sua vida em que ele inicia sua análise com Loewenstein, ele começa a frequentar os seminários de Kojève sobre a “Fenomenologia do Espírito” - dupla clivagem num espírito inconformado. A partir desse momento, as categorias centrais da fenomenologia hegeliana, tais como consciência-de-si, a dialética do senhor e do escravo, o desejo por reconhecimento e a consciência infeliz foram incorporadas por Lacan em seu sistema de pensamento e passam a operar significativas transformações em suas concepções a respeito da subjetividade humana em suas relações com os âmbitos do desejo e do saber. Essa dialética da experiência da consciência na sua relação com o conhecimento de si e do mundo está na base de uma noção central desse período formativo de Lacan: a distinção entre moi e je, que, por sua vez, fundamenta as reflexões de Lacan sobre o estádio do espelho e as relações narcísicas - é o próprio registro do Imaginário que começa a ser gestado no interior de suas reflexões. Isso justamente porque o sujeito, no seu movimento de apreensão de sua própria subjetividade, no movimento do espírito de conhecer a si mesmo, cinde-se em sujeito cognoscível e objeto do conhecimento, num movimento reflexivo especular que opõe uma instância da consciência que conhece e sua própria objetividade. Portanto, um eu que conhece e um outro eu que é conhecido, falado, simbolizado. Como já afirmara o poeta Rimbaud: “Eu é um Outro”. Acompanhar a formação das ideias no interior de um sistema filosófico consistente nos possibilita pensar os próprios pressupostos epistemológicos que um autor mobiliza na tessitura dos seus conceitos. Nesse mesmo momento de sua formação, na segunda metade dos anos 30, Lacan já havia tomado contato tanto com as ideias de Henri Wallon como de Melanie Klein, duas referências fundamentais nas reflexões de Lacan sobre o estádio do espelho, a formação do eu e as relações narcísicas que atravessam esse registro. É também o mesmo momento em que ele se apropria da fenomenologia hegeliana, cuja preocupação central é a experiência da consciência e os seus momentos de desdobramento. “O eu [je] como sujeito do desejo, o desejo como revelação da verdade do ser, o eu [moi] como lugar da ilusão e fonte de erro” (p.150). Desse modo, estão postas as engrenagens conceituais que farão Lacan postular um radical descentramento da subjetividade humana na esteira dessa ruptura entre o sujeito do desejo e as ilusões imaginárias do eu. De fato, é uma renovação radical de categorias analíticas já postas por Freud e retomadas por Lacan. Nesse momento de aproximação da fenomenologia, ocorria um distanciamento da ciência psiquiátrica. Sua frequentação do seminário de Kojève lhe fornecia um novo aparato conceitual para pensar a subjetividade humana e as suas múltiplas modalidades e distorções. A principal conquista, portanto, do pensamento lacaniano nessa fase dos seminários de Kojève foi o distanciamento das ideias até então defendidas por Lacan em sua tese de doutorado da ciência psiquiátrica onde o cogito cartesiano ainda possuía alguma importância, para uma filosofia do desejo, onde a sua leitura de Freud não mais seguia a ortodoxia dos órgão psicanalíticos institucionais e ele passa a se preocupar com a própria gênese da consciência-de-si e as suas clivagens fundamentais. Diz Roudinesco: “uma nova leitura da ‘verdadeira’ fenomenologia, aquela de Hegel, Husserl e Heidegger, havia transformado a história da filosofia. Lacan dispensava assim a fenomenologia psiquiátrica, da qual se nutria até 1932, substituindo-a por uma outra fenomenologia oriunda de sua frequentação direta da escola francesa das ciências e da religião” (ROUDINESCO, 2008, p.147). Deslocamentos significativos no interior de um pensamento em formação. O final dos anos 30 foi uma época de reformulações teóricas e distanciamento de concepções psiquiátricas, sobretudo através de uma leitura de Freud influenciada por esses novos pressupostos filosóficos. O período da II Guerra (1939-1945) foi de pouca produção teórica, por razões óbvias. Entretanto, após esse período sombrio, um novo autor será absorvido pelo sistem lacaniano, em que pese as inúmeras ambiguidades de sua obra e, principalmente, de seu inequivoco envolvimento com o partido nazista: Martin Heidegger. Roudinesco não cansa de nos alertar para o fato de que Lacan nunca faz uma interpretação inocente de qualquer autor com o qual ele se disponha a dialogar, mas opera uma verdadeira ‘incorporação’ de um conjunto de conceitos e lhes confere nova significação, à luz de seu próprio sistema. Isso é verdade sobretudo em sua aproximação a Heidegger. A magnum opus de Heidegger Sein und Zeit e o pensamento heideggeriano já haviam penetrado nos círculos filosóficos franceses através dos existencialistas ainda nos anos 30. No período pós-guerra, sobretudo na Alemanha e por conta de seu envolvimento com o nazismo, seu pensamento foi descreditado e colocado em suspensão. Muito se publicou em revistas francesas a respeito da problemática relação entre o pensamento de Heidegger e seu envolvimento político com o nacional-socialismo e a questão de se os fundamentos filosóficos heideggerianos estariam de algum modo contaminados por teses de cunho nazista. Foi a figura de Jean Beaufret a principal responsável pelo restabelecimento de Heidegger, ao menos na França. “Da perspectiva sartreana, a filosofia de Heidegger era interpretada como uma antropologia existencial. Donde a ideia de que a existência precede a essência e de que a liberdade do homem não tem outro fundamento senão o de um humanismo fundado na humanização do nada” (ROUDINESCO, 2008, p.303). Desse modo, tanto pela perspectiva existencialista sartreana quanto pela via de Beaufret, a filosofia de Heidegger será recepcionada na França pela via da fenomenologia e do humanismo, sendo o vocabulário heideggeriano integrado em diversos sistemas filosóficos, tais como ser-aí (dasein), ser-para-morte, a distinção entre o que é da esfera do ôntico e o que é da esfera do ente, e, principalmente, o conceito chave de falta-a-ser. A aproximação de Lacan a Heidegger se deu através de Beaufret. Este tornou-se analisando de Lacan e o analista sabia da proximidade de seu analisando de Heidegger. O filósofo alemão queria restabelecer sua dignidade filosófica após o período de desnazificação. A partir desse jogo de interesses, deu-se o que Roudinesco chamou de “um imbróglio na relação transferencial” entre analista e analisando. É através da leitura ortodoxa de Beaufret que Lacan incorpora determinados conceitos heideggerianos à sua obra. O interesse de Lacan em Heidegger refletia sobretudo uma comunidade de interesses e temas filosóficos, tais como o interesse de ambos na centralidade da linguagem em sua relação com o ser, a busca por uma certa autenticidade na expressão da subjetividade humana e o próprio dilaceramento ontológico ao qual os humanos estão submetidos no interior de uma experiência trágica da existência. Portanto, podemos localizar nessa época de sua formação intelectual, as formulações de Lacan sobre a função da palavra e da linguagem no acesso ao âmago do ser, a busca da verdade enquanto desvelamento do desejo - é a função significante que se revela. O que Lacan buscava na obra de Heidegger era não uma ontologia, mas uma estrutura “não uma busca por não-ocultamento, mas um desvelamento como investigação da verdade do desejo”. Estamos neste momento de nossa reflexão adentrando os anos 50. A publicação do clássico de Lévi-Strauss “Estruturas elementares de parentesco” é de 1949, e Lacan recebeu esta obra com uma dádiva que recolocava inúmeras questões que ele mesmo já havia se feito e propõe uma série de outras questões muito vinculadas aos estudos de etnografia e antropologia. É justamente no início dos anos 50 - nesse entrecruzamento da revolução antropológica lévi-straussiana e do contato com a ontologia heideggeriana - que a função significante emerge no pensamento lacaniano para ganhar a centralidade fundamental que ela tem no interior de sua obra. Essa ideia apareceu em seus contornos primordiais já no “Discurso de Roma” em 1953 e Lacan não se cansou de reformular seus pressupostos e articulá-la com o registro do Simbólico. Diz Roudinesco: “Trata-se de falar de uma voz que fala em lugar do homem e que é preciso escutar para restituir-lhe o sentido (...) Heidegger anunciava assim a verdadeira palavra do ser, que devia ser recolhida no recolhimento e no amplexo de toda desmedida do sujeito” (p.310). Assim, podemos perceber o modo como Lacan incorporou essa noção central para Heidegger: a relação primordial que conecta linguagem e ser, a fala e as suas modalidades de significante e significação. São os modos tortuosos de se alcançar o abismo da existência humana, o acesso privilegiado de acessar a verdade do desejo do sujeito. A partir dos anos 60 e 70, principalmente nos seus seminários, Lacan continua articulando psicanálise, filosofia e ciências, numa tentativa subversiva de retomar uma certa leitura freudiana.

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