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    A morte em Veneza -

    Thomas Mann

    Relógio d'água
    2004
    128 páginas
    4h 16m
    ISBN-10: 9727087981
    Português Brasileiro
    3.6
    20 avaliações
    Leram33Lendo2Querem25Relendo0Abandonos1Resenhas2
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    Régis Maz picture
    Régis Maz29/10/2025Resenhou um livro

    A decomposição da razão em Veneza

    Que leitura impactante! O protagonista de A Morte em Veneza vive dividido entre a razão e o desejo. Em Berlim, ele não deixava seu lado devasso aflorar; mantinha-se firme na disciplina, abraçado à razão, desenvolvendo sua arte e sua imagem pública de forma rígida. Já em Veneza, parece libertar-se das amarras do pudor social e se permite sentir por aquele garoto um sentimento proibido, algo que o próprio texto descreve como “errado”, pois o menino é quase uma criança, amada à distância por um homem já maduro. Ainda assim, ele decide se entregar, indo contra a razão e cedendo ao desejo. Para mim, a história trata do proibido e de como, em certos ambientes, diferentes dos que estamos habituados, ousamos dar asas a pensamentos impróprios, sem temer as represálias da razão e as regras rígidas que a sociedade, e nós mesmos, nos impomos. A razão, nesse livro, é o período em que ele viveu em Munique: estabelecido, regrado, reconhecido na sociedade pela sua arte. Agora, ao decidir viajar, busca aliviar o espírito cansado, numa tentativa de se reconectar com a emoção, de encontrar paixões que o tirem da estagnação. Quando li As Cabeças Trocadas, um amigo me disse que a mesma filosofia presente naquela lenda indiana aparecia também em A Morte em Veneza e em Doutor Fausto. Isso me fez querer ler o livro, e realmente percebo a ligação: aqui também há o conflito entre razão e desejo, mas tratado de forma muito mais direta e intensa. Em vez de uma lenda distante, Mann nos coloca diante de um homem moderno, alguém que vive entre máscaras sociais e vai, pouco a pouco, deixando-as cair. Em Berlim, Aschenbach levava uma vida rígida, austera, de rotina imutável. Sua juventude foi marcada por obras mais intensas e dramáticas, mas, com o tempo, passou a escrever de modo mais moral, mais conservador, dentro do tom esperado pela sociedade. Em Veneza, tudo isso começa a ruir. Ele já havia estado lá antes e adoecera, mas agora percebo que talvez aquela doença não fosse física, pode ser que fosse espiritual. A verdadeira doença parece ser o desejo reprimido, a vontade sufocada de deixar o espírito falar mais alto. Em Veneza, esse desejo se manifesta novamente, e ele passa de adorador de Apolo, símbolo da razão, da forma, da beleza contida, a seguidor de Dionísio, entregue ao instinto e ao prazer. Se antes se contentava em admirar a beleza, agora deseja possuí-la. Essa transformação é controversa e desconfortável, porque o objeto do seu desejo é um garoto. O autor não quer que sejamos moralistas, mas é quase impossível não reagir, já que tudo é descrito de modo tão tenso e humano. O sentimento de repulsa e fascínio coexistem. Porém, ao mesmo tempo, é possível compreender o que Mann quer dizer: trata-se da luta entre o espírito contido e o impulso que ele tentou esconder de si mesmo por toda a vida. A cidade também reflete esse processo. Veneza vai se degradando aos poucos, assim como a máscara moral de Aschenbach. O ambiente e o homem entram juntos em declínio, uma metáfora poderosa para a dissolução do espírito. Assim como em As Cabeças Trocadas, o tema é o embate entre razão e instinto, mas aqui de forma mais crua e moderna. Lá, a busca pela perfeição envolvia a lenda de três personagens; aqui, é um único homem do mundo moderno lutando contra si mesmo. O desejo subjuga a razão, e ele precisa arcar com as consequências de tê-lo deixado dominar sua alma. A estrutura do livro é lenta no início: o autor apresenta o protagonista, sua rotina, sua rigidez, e então, de modo quase imperceptível, o subtexto começa a vir à tona. Quando o desejo se manifesta por completo, entendemos que a queda é inevitável e que, assim como Veneza, Aschenbach vai descer aos poucos até o fundo do próprio abismo. Achei o livro profundamente impactante. Comecei acreditando que seria uma leitura árida, mas, conforme as camadas se revelam, percebi uma riqueza simbólica enorme. Thomas Mann transforma o conflito entre razão e desejo numa experiência devastadora, mostrando como, sob a superfície da civilidade, escondemos nossos instintos mais intensos. E ver essa máscara se desfazer, tanto no protagonista quanto em nós, leitores, é uma das experiências literárias mais fortes que já tive. “Pois a beleza, mesmo quando não é sensual, leva ao desejo; e talvez justamente porque não é sensual, desperta o desejo mais profundo, mais espiritual.” Thomas Mann, A Morte em Veneza

    85 curtidas

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    3.6 / 20
    • 5 estrelas25%
    • 4 estrelas40%
    • 3 estrelas15%
    • 2 estrelas10%
    • 1 estrelas10%
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    Paul Thomas Mann

    Escritor, romancista, ensaísta, contista e crítico social do alemão, é autor de obras-primas inúmeras de nossa época. Adversário ferrenho do nazismo, exilou-se nos Estados Unidos. Nobel de Literatura de 1929, é irmão mais novo de Heinrich Mann.

    98 Livros
    461 Seguidores
    Schleswig-Holstein, Alemanha

    Paul Thomas Mann