Ao invés de apresentar convencionalmente Benedito Nunes aos que abrem este livro, uso às avessas estas abas. Desdobro-as para que continuem uma capa que talvez possa dizer muito mais do que qualquer palavra, a belíssima fotografia que capturou para sempre (e para o mundo) um instante inesquecível: Benedito Nunes, em primeiro plano, sentado em um degrau das escadarias da Biblioteca Nacional de Paris, com os prédios elevando-se ao fundo. Não só para a autora da foto, Rosário Lima, como para todos nós, seus amigos, que lá estávamos, na verdade, o monumento era ele, ali sentado. É para ele que os olhares convergem. Sempre. Aqui neste momento também. De um escritor da força de Benedito Nunes, para toda a intelectualidade brasileira, este livro de pequeno formato tem o alcance dos grandes volumes. Os quatro textos aqui reunidos, dois ensaios e duas lembranças, permitem-nos sentir o pensador e o homem, o distanciamento da filosofia e a intimidade da memória. É delicioso vê-lo refletir sobre si mesmo e sobre a vida, quando fala de expoentes como Clarice Lispector, que conheceu pessoalmente, e de um de seus mais fraternais amigos, de geração, de pensamento, de formação e de vivência, o poeta Mário Faustino. É fundamental vê-lo discorrer sobre um capítulo da religião (como um arqueólogo), e comentar, com a clareza que lhe é natural, o "fazer filosófico". Lilia Silvestre Chaves
