Vale da Morte: o Contestado visto e sentido - "entre a cruz de Santa Catarina e a espada do Paraná

    Nilson Cesar Fraga

    Hemisfério Sul
    2010
    155 páginas
    5h 10m
    ISBN-13: 9788586857409
    Português Brasileiro

    Da igreja que fica num morrinho, descemos de caminhonete até a planície do rio Santa Maria e paramos defronte a uma cerca de arame farpado que delimitava as terras, com a entrada feita por um arco de madeira flexível tirada das matas circunvizinhas. Estávamos no coração de Santa Maria. A planície não era muito grande, mas caberiam uns mil casebres ou mais, além da praça e das igrejas. Porém o reduto não ocupava apenas esta área, ele seguia o vale e os morros. Vi alguns pés de roseira e perguntei ao prefeito por que estavam ali e quem as plantou. Ele disse que aquele local era o cemitério do reduto. Jaziam ali, segundo se comenta na cidade, mais de quatro mil corpos, e diziam também que as roseiras foram plantadas em 1916, em homenagem a Virgem Maria Rosa, a Joana D’Arc do Sertão. Confesso que nunca havia imaginado que roseiras poderiam durar quase um século. Fotografei algumas e de perto se via o aspecto de antigas, rugosas e, em alguns casos, meio enferrujadas. Todas as roseiras de flores vermelhas. O cemitério era um campo de gramíneas demarcado por um dos mourões colocados também em 1916. Para qualquer lugar que andássemos, estávamos pisando em mortos. (...) Comecei a vasculhar o lugar. Tinha de achar maiores fragmentos do genocídio de Santa Maria. (...) Era o rio Lava Tripa. Tinha este nome desde os tempos das batalhas finais no reduto. O número de mortos era muito grande para ser enterrado durante os bombardeios federais, então os caboclos colocavam os corpos dilacerados pela munição naquelas águas geladas, montanas, para evitar a putrefação. Quando os bombardeios paravam, eles retiravam os corpos e levavam para o enterro no cemitério. Enquanto os corpos jaziam sobre o leito gelado do rio, suas águas correntes faziam a limpeza das vísceras, o caldo vermelho seguia por quilômetros e todos podiam saber, pelo sangue na água, que muitos estavam morrendo em Santa Maria. Há quem diga não ser o Contestado uma Guerra!

    Resenhas (1)Ver mais
    Vanessa Juliane picture
    Vanessa Juliane23/03/2026Resenhou um livro
    3.5 (Bom)

    Bom livro.

    Como descendente dos caboclos que lutaram na guerra, pude sentir e imaginar um pouco dos horrores que enfrentaram. O autor trouxe, em forma de resenha, os locais que foram alvo de ataques e isso me fez ter vontade de mergulhar mais a fundo na história do Contestado. Vou usar o livro como um guia para desbravar essas localidades.

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