O Livro de San Michele / The Story Of San Michele é uma das mais emocionantes biografias de nossa época. É a história de um solitário médico sueco que viveu na primeira metade do século XX em Paris, Londres, Lapônia e Roma. Em sua vida fecunda experimentou as mais interessantes vivências, às vezes fortes e assustadoras, como os impressionantes dias que passou nos bairros pobres de Nápoles, onde a cólera grassava e as ratazanas enfurecidas, saídas das cloacas, em profusão, atacavam como cães raivosos, devorando cadáveres e semivivos. O clima de magia é contagiante e a parte histórica é rica em narrativas. O autor, Axel Munthe, foi contemporâneo de personagens da história da Medicina, cujas descrições, riquíssimas, são especialmente curiosas pelas particularidades. Descreve, com a mesma sensibilidade, ricos, pobres, nobres, anônimos e andrajosos que marcaram a sua vida. Munthe era um grande amigo dos animais, amava os cães e dizia que, no dia do juízo final, eles ganhariam voz e seriam os primeiros chamados a testemunhar. No final de sua vida, septuagenário e quase cego, Munthe refugiou-se na belíssima Anacapri — na ilha de Capri, em frente à ponta sul do golfo de Nápoles na Itália —, cercado pelo infinito mar azul, longe de tudo, quiçá tentando achar, no simples, a resposta para o mistério da complexa existência. Há quem entenda que San Michele é o livro da morte, mas não o é. É o livro da vida, misteriosa e às vezes inexplicável, como a Esfinge. Como escreveu um crítico: “Com todo o seu realismo e malgrado as duras e cruas cenas que nele ocorrem vez por outra, O Livro de San Michele é um evangelho de bondade”.
O Livro de San Michele - Boken Om San Michele
Axel Munthe
Médico e santo
O Livro de San Michele é de 1929 e nele Axel Munthe (1857-1949) conta não a história do santo, mas de um lugar no sul da Itália, mais exatamente uma villa em Anacapri, sua residência. Ele é um médico sueco (com várias andanças pela Europa), que poderia ser considerado um santo, tamanha é sua bondade, humildade e modéstia - ele tem sim, muito de São Francisco de Assis, “meu bem-amado, com Santa Clara ao lado, com um lírio na mão.” São muitas as ocasiões para demonstrar isso. Munthe nega que este seja um livro autobiográfico ou de memórias médicas: afirma, no prefácio, que muitos dos episódios que relata tiveram lugar num terreno “mal delineado entre o real e o irreal”. Sim, mas somente um médico dedicado aos que sofrem verdadeiramente poderia nos envolver de maneira tão profunda nas histórias aqui apresentadas, poucas delas alegres, todas profundamente humanas. São histórias de pacientes, amigos, anônimos e até de animais. No tempo em que Munthe medicava e clinicava, um médico atendia (algumas vezes sem ter a prática ou os conhecimentos necessários) até mesmo os animais de zoológico ou de particulares. Especialmente cães, que os parisienses sempre tiveram, e mesmo macacos e gorilas - ah, Billy, o macaco sapeca, e Tappio, o cão lapão, tão inteligentes que pareciam gente! Aliás, durante a narrativa diversas vezes Munthe “conversa” com animais e também com alguns “espíritos” (mas este não é um livro espírita, felizmente), sem que a coisa toda pareça falsa. Ele nos oferece histórias passadas em Paris, na Lapônia (norte da Escandinávia), depois em Nápoles, lutando contra a cólera, seu regresso a Paris, e a vez em que atuou como condutor de mortos (Der Leichenbegleiter) ao repatriar o corpo de um jovem sueco falecido em terras alemães (esta, uma história envolvendo embalsamamento e burocracia e, como as demais, intensa e comovente). Mas o relato da vida do pequeno John, dado em adoção, ainda bebê, por uma rica jovem que não o queria, deve levar muita gente às lágrimas. Parece uma daquelas histórias de Charles Dickens sobre as crianças dos bairros pobres de Londres nos inícios da industrialização. Por todo o livro há referências a diversas personalidades e celebridades de sua época, pois ele era um médico deveras famoso. Foi amigo do escritor Henry James, por exemplo. Não tratou mas conheceu Guy de Maupassant no tempo em que o escritor francês fazia pesquisas sobre hipnotismo para o conto fantástico O Horla (com menções ao Rio de Janeiro, inclusive). Maupassant apreciava mulheres rechonchudas (o célebre conto Bola de Sebo é sobre uma delas, gentil e bem fornida de carnes), especialmente prostitutas, e teria morrido de sífilis. Há também uma história com final infeliz sobre uma de suas apaixonadas. Munthe dedica vários trechos do livro ao hipnotismo, então muito na moda, usado por diversos médicos para tentar curar todo tipo de doença ou anomalia. Relata que havia alguns deles "que consideravam ser possível até mesmo a cura do homossexualismo através da hipnose", etc... Assuntos são abordados e depois retomados, como sua intenção de reformar a villa de San Michele, uma obra dispendiosa. Aceita então trabalhar em Roma, onde os médicos estrangeiros eram muito apreciados pelos ricos europeus e americanos. Com sua enorme clientela, desperta a inveja dos colegas de profissão. Depois, voluntariamente, participa do salvamento das vítimas do terremoto em Messina, em 1908, quando morreram mais de cem mil italianos. São muitas histórias comoventes, que vão continuar até o final do volume. No último capítulo temos o médico, próximo da morte, sendo julgado por um conselho de santos católicos (e ele era protestante!), que decidiam se ele tinha ou não direito a um lugar no Céu. Em seu apoio dão testemunho alguns animais, especialmente as aves que salvou da morte. Então, a última página é absolutamente franciscana. E bela demais! Pensei em dar a inexistente nota 4,7 para este livro, mas como sou admirador de São Francisco de Assis (desde o livro de Nikos Kazantzakis, O Pobre de Deus), vão cinco estrelas mesmo. Lido entre 15 e 20.10.2011
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