Depois de cessado o bombardeio de Cabul, Ann Jones, premiada jornalista e ativista dos direitos da mulher, partiu para a cidade destruída esperando levar ajuda a um lugar a que os Estados Unidos, seu país, só haviam levado destruição. Este é o relato cortante de uma cidade lutando para erguer-se das ruínas. Trabalhando junto a uma infinidade de empobrecidas viúvas de guerra, recapacitando professores de inglês de Cabul, silenciados durante longo tempo, e inspecionando os presídios femininos da cidade, Jones adentra uma ampla comunidade de mulheres forçadas a viver à margem da sociedade: meninasnoivas fugitivas, prostitutas humilhadas, esposas desprezadas, vítimas de estupro. Nas ruas e nos mercados, ela ouve a versão afegã dos supostos benefícios trazidos pela queda do Talibã e aprende que considerar as mulheres como seres humanos inferiores é a norma, não uma aberração de um governo ostensivamente repressor. Jones contrasta os diferentes modos pelos quais a educação, a cultura e a política afegãs têm sido repetidamente seqüestradas — por comunistas, extremistas islâmicos e ocidentais defensores do livre mercado — sempre com resultados desastrosos. E ela revela, nos pequenos acontecimentos, os grandes descompassos: entre as promessas e as realizações dos Estados Unidos, entre a nova “democracia” e os ainda poderosos déspotas locais, entre o que é alardeado e o que acontece na vida real.
Cabul no Inverno - Vida sem paz no Afeganistão
Ann Jones
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O Afeganistão é tema de pelo menos dez livros editados no Brasil em 2007, metade dos quais relatos de mulheres do Ocidente com algo a dizer sobre a vida debaixo das burcas. Destes, "Cabul no Inverno", da jornalista e ativista estadunidense Ann Jones, merece atenção especial, pois vai muito além da justa indignação com o Talibã e o patriarcalismo afegão. Ann Jones trabalhou como voluntária de 2002 a 2005, a tentar colaborar no reerguimento do país com aulas de inglês para professores e professoras do ensino médio e ajuda humanitária a viúvas e presidiárias – muitas delas acusadas apenas de terem fugido de casa, ou seja, da violência doméstica. Desse compromisso prolongado, saiu uma visão ponderada e aguda, capaz de ver mais do que a permanência da “Idade Média” nessas burcas de poliéster azul, importado da Coréia do Sul. Vai além da mera indignação com o fundamentalismo para buscar as raízes do fracasso da “reconstrução” orquestrada pelos EUA e do ressurgimento desses valores arcaicos. Nos anos 80, as mulheres de Cabul tinham amplo acesso ao trabalho e a educação e podiam usar minissaias. Como se sabe, estadunidenses, com ajuda de fundamentalistas sauditas, financiaram os guerrilheiros mujahidin para expulsar o governo pró-soviético, em boa parte por meio de militares paquistaneses que, além de embolsar parte dos recursos e incentivar as rivalidades entre as facções, favoreceram os mais conservadores. Expulsos os russos, Washington suspendeu toda a ajuda econômica e humanitária e deixou as milícias se digladiarem até a vitória dos ultra-fanáticos do Talibã, do qual os EUA esperavam um governo de “lei e ordem” que permitisse à Unocal contornar o Irã com um oleoduto do Cáspio ao Paquistão. Não é preciso lembrar as conseqüências. Mais útil é ver com os olhos de Ann Jones os novos erros, cometidos pelos EUA depois de setembro de 2001. O país foi abandonado a mujahidins e traficantes de ópio, em relação aos quais muitos afegãos haviam julgado o Talibã um mal menor, as promessas de desenvolvimento foram esquecidas e Washington partiu para uma nova cruzada em Bagdá. A escassa ajuda, lenta e ineficaz, foi embolsada por consultorias e empreiteiras privadas, alheias à realidade local. Milhões de livros didáticos, trazidos de avião da Indonésia, onde foram impressos a alto custo, mostraram-se ilegíveis e inúteis: páginas de obras diferentes foram embaralhadas pela Creative Associates ou pelas gráficas à qual ela encomendou o serviço, que não conheciam as línguas do Afeganistão. A Universidade de Nebraska, à qual foram encomendados oito milhões de livros didáticos, empurrou uma reimpressão de textos escritos com patrocínio da CIA para as madrassas dos mujahidins, que exaltam a jihad e o martírio em nome de Alá e formulam problemas de matemática com números de soviéticos mortos. Ao longo de seus anos em Cabul, a autora viu os afegãos cada vez mais nostálgicos: os soldados soviéticos não eram tão arrogantes, nem os empurravam para cá e para lá. Davam bons empregos, alimentos, assistência médica e educação. Convidavam alunos e professores para estudar na União Soviética. Já a promessa dos EUA aos melhores alunos de Ann Jones, de uma bolsa de graduação, acabou em fiasco. O prometido curso intensivo de inglês não saiu. A empreiteira encarregada da colocação não encontrou faculdades dispostas a aceitá-los. Os estudantes se candidataram no segundo ano, mas chegaram ao fim do curso esperando a hora da partida, enquanto as moças tentavam driblar as pressões para se casarem e desistirem dos estudos. Quase todos os alunos foram desqualificados por seu inglês insuficiente, apesar de promessas verbais de que isso não os prejudicaria. A única a se qualificar foi retirada do avião ao se descobrir que estava grávida. “Pensou que conseguiria um passaporte de graça para a cidadania americana” – disse o funcionário da embaixada dos EUA à autora – “essa foi a primeira coisa que eu aprendi aqui: eles vão sempre se aproveitar da gente. Depois de tudo que fizemos por eles.”
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