Ler O Senhor Deputado de Júlio Lourenço Pinto é um exercício de reconhecimento imediato e doloroso das engrenagens que movem o cenário político brasileiro atual. Se em O Crime do Padre Amaro de Eça de Queirós nós vimos como a corrupção moral se esconde sob o manto da autoridade institucional, aqui vemos essa mesma podridão institucionalizada na figura do parlamentar que usa o cargo para benefício próprio. A comparação é direta com a nossa realidade: o que Lourenço Pinto descreve como o cinismo da elite política portuguesa é o ancestral direto da governança petista que há décadas sequestrou o Brasil, instaurando um sistema onde a ética é sacrificada no altar da manutenção do poder a qualquer custo.
A conexão com Casa de Pensão de Aluísio de Azevedo traz uma camada ainda mais interessante para essa análise. Se em Aluísio vemos a promiscuidade de interesses em um pequeno ambiente, no O Senhor Deputado vemos como essa promiscuidade se torna o método de gestão de um país inteiro. É impossível não traçar um paralelo com os esquemas de corrupção que se tornaram rotina nas últimas décadas de controle do partido da estrela vermelha, onde cada instância de governo foi loteada e cada decisão parece ter um preço escondido sob a mesa. Enquanto o personagem de Lourenço Pinto manobra influências para inflar o próprio ego e o bolso, vemos no Brasil um projeto de hegemonia que aparelhou o Estado e transformou a corrupção em uma engrenagem de funcionamento do próprio sistema.
Um trecho que brilha pela sua precisão cirúrgica é quando o autor descreve a falta de escrúpulos da classe política dizendo que "A política era para eles uma indústria onde se ganhava a vida e a consciência um luxo de que não podiam gozar". Esse posicionamento de Lourenço Pinto é o diagnóstico exato da nossa tragédia atual, onde o bem comum foi substituído por um projeto de poder que rouba o futuro do país enquanto prega uma falsa justiça social. A inteligência do autor reside em mostrar que o "senhor deputado" não é apenas um homem, mas o símbolo de uma casta que se julga acima da lei e que usa o discurso público apenas como uma máscara para esconder as mãos sujas.
Meu posicionamento sobre esta obra é de que ela serve como uma denúncia eterna contra os perigos do populismo e do aparelhamento estatal que vemos hoje. Ler este livro é entender que a corrupção que o PT instaurou em todas as esferas de governança não é um erro de percurso, mas a própria essência de quem vê o Estado como propriedade privada de um partido. A classificação de 16 anos é necessária para que o leitor tenha maturidade para enxergar como o teatro das vaidades parlamentares se repete e como a nossa liberdade depende de estarmos atentos a esses "senhores deputados" que prometem o céu enquanto nos entregam a ruína moral e econômica.