Este livro tem como um de seus personagens um técnico da indústria cinematográfica que se enfoca com perfeição e requinte e deixa um bilhete a partir do qual se pode refletir sobre as trágicas circunstâncias do cinema brasileiro enquanto arte e indústria. "Cinema Cativo" é a reunião de uma série de artigos de combate do polêmico cineasta Ipojuca Pontes, diretor de "O Auto da Compadecida" e "Pedro Mico", entre outros filmes. Raras vezes os bastidores da produção cinematográfica no Brasil foram devassados com tanta coragem e isenção.
Cinema Cativo -
Ipojuca Pontes
O título do livro expressa um índice das discussões levantadas por Ipojuca, se o Cinema é Cativo (que ou quem perdeu sua liberdade; preso, encarcerado), quem confiscou essa liberdade? O cinema fora sequestrado pelo Estado; no afã de ser a solução do Cinema Brasileiro, a constituição de um sonho industrial, limitou seu fomento há uma pequena parcela de produtores (tubarões) e deixou todo um mercado miserável, precário. As sucessivas (e diferentes) intervenções do Estado na indústria cinematográfica (sua tentativa, sempre vã) nunca deram o resultado esperado, além disso, foram, aos poucos, sufocando essa classe da sociedade civil. Cinema Cativo também intitula o artigo que fecha esta antologia, neste texto, espécie de balanço das políticas cinematográficas brasileiras, Ipojuca explica uma assertiva do então ministro da economia, Celso Furtado: "O cinema brasileiro é uma indústria inviável". Por quê? Furtado não explica sua conclusão, mas é o que Ipojuca faz neste pequeno artigo e, claro, nesta antologia como um todo. Em diferentes textos, Ipojuca cita um ditado Sam Goldwyn que exemplifica as relações cinematográficas: O roubo é uma instituição estável num mundo instável. Se umas de nossas principais conquistas, para Ipojuca, seria a lei de reserva de mercado (a cota de telas para filmes Brasileiros), é justamente ela que cria um problema. Parcela considerável dos rendimentos da Embrafilme vinham da taxação dos filmes importados (bilheteria), isto é, quanto mais presença importa, mais receita para a Estatal. Todavia, se 70% da sua receita era para se manter viva (custos da operação), 30% seriam utilizados para produção de filmes brasileiros... Mas onde exibi-los, se a presença importada era massiva? Várias pessoas argumentam que a lei deveria ser ao contrário, por que não limitar a presença do filme importado? A resposta parece óbvia, e aí reside nosso paradoxo, "dessa contradição irrecorrível a institucionalização da dependência" (Pontes, 1987, p. 114). Esse foi, ao longo dos anos, um debate recorrente dentro da instituição: filmes para o mercado interno ou para o mercado externo? Uns queriam uma coisa, outros queriam outra, a conciliação nunca foi possível. Mas.. as grandes produções foram tomando conta dos recursos. Das tantas contradições do cinema brasileira, outra questão é abordada neste livro: cultura ou mercado? O eterno embate não teve vencedores, alguns diziam fazer cultura e faziam comércio e vice-versa, ganhava quem bajulava mais: "Mas a atividade sempre subordinada a crises cíclicas e cada vez mais frequentes jamais se consolidou entre nós" (Pontes, 1987, p. 101). Em outro livro, de Nuno Cesar Abreu (Boca do lixo: cinema e classes populares), ele comenta a respeito das relações entre cinema e estado, das relações entre cultura e arte: "Resultado da coincidência do projeto nacionalista dos cineastas de esquerda com a geopolítica dos militares de direita, estava protegida pela ideologia da identidade cultural, comum a ambos os grupos" (Abreu, 2006, p. 19). Dessa estranha aliança, as contradições se multiplicam. Após a gestão Roberto Farias (momento ápice do cinema brasileiro), a gestão Celso Amorim (79-82) envereda pelo caminho externo... O resultado, nós sabemos. A política Embrafílmica voltada ao mercado externo e, consequentemente, ao filme comercial (ainda que se queira cultural, sério, nacionalista), pode ser resumida do seguinte modo : Regozijo de poucos escolhidos em detrimento de muitos ignorados.
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