ORWELL E AS OUTRAS VERDADES
Mais um relido com a sofreguidão que só os grande autores proporcionam. O jovem repórter se disfarça e vive alguns dias como sem-terra, operário, cortador de cana ou camelô. Depois, toma um banho, volta para a redação e escreve uma matéria sobre o cotidiano daquele mundo tão estranho e cheio de gente sofredora. Se der sorte, ganha um dos 554 prêmios de jornalismo oferecidos por multinacionais. Para quem acompanha as edições de domingo dos jornais ou revistas semanais, não há novidade alguma nesse tipo de coisa. Em 1932, ano em que George Orwell publicou Na Pior em Paris e Londres, isso era um negócio originalíssimo. Ninguém tinha feito nada parecido. Orwell, ou melhor, Eric Blair – seu nome de batismo – não era jornalista nem criou esse artifício para vender jornal ou ganhar prêmios. Sua motivação era conhecer de perto os seres humanos, se aproximar dos miseráveis do seu tempo, saber como viviam e conhecer de perto a humanidade daquelas pessoas que o restante da sociedade fingia desconhecer a existência. Essa intenção fica evidente durante a leitura do livro, resultado de sua vida como mendigo ou desempregado nas duas metrópoles. Seu mérito é proporcional ao esforço da elite inglesa em manter esses seres humanos na invisibilidade. Tal esforço pode ser medido pelas leis que proibiam mendigos de sentarem ou mesmo pararem para pedir esmolas em locais públicos ou de dormirem nas ruas. Pedir podia, mas o sujeito era obrigado a permanecer andando sem parar, principalmente porque também não podiam dormir duas vezes seguidas no mesmo albergue. Era um monte de gente suja e esfomeada de um lado para outro o tempo todo. Leis que fariam a elite paulistana babar de inveja. Os textos, escritos em forma semelhante a um diário, expressam a profunda identificação de Orwell com os seres humanos com quem conviveu nesta época. Uma identificação sincera, de quem enxerga no outro não apenas um personagem adequado para ilustrar ou compor sua história. Orwell compreende as reações o pensamento de quem, por não ter um tostão no bolso, sente-se completamente livre exatamente porque não precisa ter medo de perder dinheiro. A identidade com essas pessoas, reforçada a cada experiência nos quartos cheios de ratos de Paris ou nas hospedarias fedorentas de Londres, também reforçou o sentimento que fez Orwell abandonar o trabalho como policial nas tropas britânicas na Birmânia (atualmente Myanmar). Ele sentia nojo da política imperialista do seu país. A partir do que viveu como policial e, depois, mendigo, Orwell definiu que tinha um lado e que seu talento de escritor estava vinculado às suas convicções. Não tenho dúvida de que isso afasta seu livro ainda mais do jornalismo, instrumento de dominação e de legitimação do discurso dos donos do poder. O escritor viveu entre os miseráveis franceses e londrinos entre 1928 e 1930, com direito a internação num hospital horroroso de Paris por causa de uma baita pneumonia. O livro, porém, só fui publicado em 1933. As editoras – e os leitores – tinham mais interesse em textos sobre o glamour dos franceses ou o poder da nobreza da Inglaterra. Paris e Londres combinavam com croissants, teatro e as jóias da coroa, jamais com gente fedendo a mijo, percevejos ou cozinhas podres cheias de ratos. Na Pior em Paris e Londres revelou outras verdades.







