O romance com diálogos bem-humorados e passagens picantes é ambientado na cidade de Alcântara, no Maranhão. A trama de desenrola em torno de Eléazard von Wogau, jornalista francês que prepara a publicação da biografia de Athanasius Kircher, jesuíta que viveu no Brasil do século XVII. Sem derrapar em chavões sobre o país, Blas de Roblès apresenta uma narrativa envolvente e vertiginosa, que revela a intimidade do autor com a cultura brasileira. Por ter vivido no Nordeste, Roblès aborda a realidade brasileira com desenvoltura, sem cair nos fáceis e perigosos clichês, ao mesmo tempo em que não perde seu “sotaque” estrangeiro, essencial para se apreender a cultura do outro e escrever um romance tão fabuloso, divertido e audacioso como este. Um romance que mescla vida e erudição, expectativa e mistério num mosaico envolvente e fascinante, avalia a escritora Tatiana Salem Levy, responsável pela orelha do livro.
Lá onde os tigres se sentem em casa -
Jean-Marie Blas de Roblès
Até então eu nunca tinha ouvido falar em Jean-Marie Blas de Roblès, um arqueólogo submarino que nasceu na Argélia, morou no Tibete, na Indonésia, no Peru, na China, no Iêmen, na Líbia e, dentre outros lugares, no Brasil. Durante o tempo em que esteve aqui, Roblès lecionou na Universidade de Fortaleza a mesma em que eu estudei e tirou da capital do Ceará boa parte da experiência que usaria para escrever esse romance. Estamos falando de um romance simultaneísta ou seja, diversas narrativas se cruzam no decorrer da história, o que lhe confere um caráter eclético de enredos acontecendo ao mesmo tempo, às vezes até se mesclando. O grande atrativo desse estilo de narração está em não atribuir a nenhum personagem específico o papel de protagonista: todas as histórias paralelas são igualmente importantes, igualmente atraentes e merecem a mesma atenção do leitor. Pessoalmente, tenho uma ótima experiência com romances simultaneístas. Sempre os achei muito interessantes. O livro é dividido em 32 longos capítulos (sem contar com prólogo e epílogo) que não são cansativos, porque há muitos intervalos dentro deles. Eu até diria que, de um modo geral, as 700 páginas do volume não cansam o leitor, embora isso seja uma opinião bem mais pessoal. A verdade é que a linguagem de Roblès oscila entre a objetividade e o floreio, o que significa que há passagens bem fluidas e outras mais densas, mais subjetivamente sofisticadas. Isso dá ao livro um caráter erudito que a própria obra propõe desde o começo: a meta não é apenas contar uma história, mas contá-la com palavras escolhidas a dedo e com fru-fru estético (recorri ao dicionário várias vezes). Para alguns leitores, esse estilo pode soar ligeiramente pedante, mas, na minha opinião, não pode ser considerado um defeito da obra, mesmo porque já percebi que se trata de um estilo comum na literatura francesa. A psicologia dos personagens fica bem melhor explorada, e alguns diálogos são bem profundos. É uma boa experiência geral. Uma coisa bem interessante em 'Tigres' é a alternância entre o Brasil da década de 1980 e a Europa do século XVII. Extremamente pitoresca, essa temporalidade cruzada é ela própria um marco do enredo, uma jogada estilística que eu achei maravilhoso perceber. Uma hora estamos na Favela do Pirambu, em Fortaleza, acompanhando as penúrias de Nelson, e logo depois passamos à Roma regida pelo Vaticano, onde Kircher prepara mais uma discussão filosófica sobre a ciência medieval. Essa transição de tempo, lugar e temática deixa o romance absurdamente dinâmico. Um dos grandes méritos do livro consiste em não cair nos lugares-comuns que a literatura estrangeira reserva ao território brasileiro. Longe de regionalismos e de chavões, Roblès se mostra atento às variações culturais do país, servindo-se dele não apenas como um mero pano de fundo, mas como cenário real, repleto de exotismos e encantos. Além disso, o autor mostra seu vasto domínio sobre a geografia local, descrevendo cenários que vão desde a floresta fechada do interior do Mato Grosso até as praias isoladas de Canoa Quebrada. Esse cuidado com a verossimilhança topográfica inspira respeito à obra e um certo alívio por parte do leitor, ao ver algo não leviano retratado naquelas páginas. É uma história interessante, repleta de encantos e belezas; um ensaio sobre alguns aspectos da condição humana, principalmente sobre a realidade das pessoas que não se encontram nos seus lugares de origem, na sua zona de conforto.
Estatísticas
Avaliações
3.8 / 19- 5 estrelas42%
- 4 estrelas26%
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