Encarar a leitura de "A quarentena" de Le Clézio, em meio ao cenário atual em que estamos vivendo, parecia, em um primeiro momento, ser algo bastante irônico, ou até mesmo sufocante. Muitos foram os livros do gênero que chegaram aos mais vendidos, assim como muitas foram as pessoas que se distanciaram de livros "pesados", com o intuito de ler algo mais leve e relaxar.
O último livro do autor publicado aqui no Brasil e que faltava eu ler, "A quarentena" se mostrou um livro difícil nas primeiras páginas, que certamente desencoraja os menos persistentes, ou que gostam de histórias bem menos densas, mas que, com o desenvolvimento de seus personagens, nos proporciona uma história tão bonita, coerente e ao mesmo tempo triste, que o leitor, ao final, se pergunta o motivo de não ter lido antes.
A história é baseada em um evento que aconteceu, de fato, com o tio-avô de Le Clézio: o mesmo ia para as Ilhas Maurício, quando os passageiros do navio começaram a dar sinais de uma pandemia ali, varíola, e então toda a navegação foi obrigada a ficar de quarentena numa ilha anterior ao destino final. O relato conta que o tio-avô retorna a França e, traumatizado, decide nunca mais ir às Ilhas Maurício.
Para este relato verídico, Le Clézio nos dá a história de Leon, um jovem que decide ir às Ilhas Maurício para, além de visitar a família, entender porque seu tio-avô, também chamado Léon, desertou da família, passando a ser chamado de Léon, o Desconhecido. É a partir daí que sabemos que o desconhecido Léon, juntamente com seu irmão Jacques, um médico bem-sucedido, e sua esposa Suzanne, numa viagem, em 1891, da França para as Ilhas Maurício, com objetivos diversos, são surpreendidos com casos de varíola dentro do navio, onde se veem obrigados a entrar em quarentena numa ilha próxima.
Tudo seria até que aceitável, se tanto a França quanto as Ilhas Maurício não tivessem virado as costas para os viajantes, deixando-os a mercê de tudo. Sem opções e confrontados com a fome, moradia e sem o mínimo de cuidados sanitários, todos são obrigados a estabelecer uma sociedade quase que ditatorial às pressas, além de se unir a escravos indianos que cultivam cana-de-açúcar no local.
Paralelo a isso, ainda temos o jovem Léon, ao desbravar o local em que terá que ficar pelas próximas semanas, conhece e se apaixona por Suryavati, uma jovem nativa da ilha, filha de Ananta, uma inglesa que sobreviveu à rebelião contra a dominação inglesa na Índia.
Sim, parece que o livro engloba muitas histórias paralelas, muitos contextos históricos, e situações que causariam estranhamento e medo de se perder de início nos leitores. Eu, de fato, tive certa dificuldade em encarar os dois primeiros capítulos, intitulados respectivamente de "O viajante sem fim" e "O envenenador", mas o autor consegue desenvolver todas as histórias, todas as menções, e trazer todos os eventos passados para o presente sem deixar de lado a maestria e escrita acertada e bela.
É um fato para qualquer um que já leu Le Clézio, que o autor faz com que a expressão "beber/comer o livro" seja transcrita quase que literalmente. Ele escreve com tanta beleza, graciosidade e naturalidade, que mais parece que estamos, de fato, bebendo suas palavras, direto da fonte. O autor não tem pressa em apresentar, personagens, cenários, situações, e até mesmo plantas, como utilizado aqui com o botânico John. Tudo aqui é belo, apropriado e certeiro em seu devido momento.
Como não poderia deixar de ser, o livro assusta por, mesmo publicado originalmente em 1995, trazer os mesmos problemas que estamos enfrentando em 2020, 25 anos depois. A negligência do Estado e político em favor dos mais pobres, daqueles que sofrem com a varíola e não conseguem ter o mínimo de tratamento ou, quem sabe, uma morte dolorida. No livro, as "autoridades" sugerem que as mortes sejam camufladas "para não causar pânico", assim como aqui os números cogitaram não ser divulgados; ali, os doentes são atribuídos para "um grupo, mas que não pegará a todos", enquanto aqui se trata apenas de "uma gripezinha".
São situações que não mudam, mas apenas se repetem e são discursadas com novas palavras, diante de outros contextos mais atuais, que não enganam quando se percebe que se trata de um ciclo vicioso, que gira e ninguém, não sem tentar, consegue quebrar de todo. Nunca a frase "olhar para o passado e conhecer a história para não cometer os erros no futuro" fez tanto sentido para mim como com a leitura deste livro.
Laureado com o Nobel por ser "explorador da humanidade além e sob a civilização regente", Le Clézio prova em "A quarentena" que não foi por acaso que mereceu o prêmio. Apesar de outros livros um tanto irregulares, é neste que ele se redime ou conquista os leitores mais exigentes, trazendo, como um livro que nasceu para se tornar um clássico deve ser: uma história atemporal.
Este livro faz parte do projeto "Lendo Nobel". Mais em: