Lido entre 07 e 13/12/2020. Avaliação final: 4,5/5,0
Quem aprecia histórias de aventuras conhece Jack London (1876-1916), famoso por O Chamado da Floresta (também intitulado O Chamado Selvagem), Caninos Brancos, O Lobo do Mar e por um romance semi-autobiográfico, Martin Eden, entre outros livros. Escreveu um conto clássico, uma verdadeira obra-prima presente em muitas coletâneas do gênero, Acender Uma Fogueira, história envolvente, angustiante. A atribulada vida de London, que influenciou profundamente sua obra, está contada numa ótima biografia editada pela Benvirá em 2013, Jack London: Uma Vida, por Alex Kershaw. Mas vamos aos contos, que é o que interessa no momento.
O Silêncio Branco (The White Silence, 1899): o título tem a ver com o vazio congelante do território canadense do Yukon, onde as temperaturas podem chegar a mais de sessenta graus negativos no inverno. London narra a arriscada viagem de trenó de três personagens (marido, mulher índia e jovem índio: respectivamente Mason, Ruth e Kid Malemute) e seus cães, todos vulneráveis ao rigoroso clima da região. Eles vão entrar numa tremenda fria, e isso não é apenas um trocadilho para esse drama... BOM
Cara no Chão (Lost Face, 1908): Subienkow, aventureiro polonês, ladrão de peles de fato, capturado por nativos do Yukon, a quem um dia agrediu e tratou como escravos, aguarda sua vez de ser torturado e morto. Enquanto seu companheiro é barbaramente torturado, recorda tudo o que se passou, como as coisas chegaram a esse ponto. Tentando escapar da morte dolorosa começa a planejar algo; depois convence Makamuk, o chefe dos nativos, a ouvi-lo. Inventara uma história mirabolante e só no fim é que entendemos o título dessa narrativa. ÓTIMO
A Liga dos Velhos (The League of the Old Men, 1902): A cidadezinha de Dawson fica agitada com a notícia de que um idoso recém-chegado, de nome Imber, nativo do rio Whitefish, quer se entregar à justiça. Com a ajuda de um intérprete índio confessa ao juiz do tribunal local, que ele acredita ser o chefe de todos os brancos, haver matado, com a participação de outros velhos da tribo, todos mortos agora, vintenas de brancos: homens, mulheres e crianças. Durante seu relato vai ficando clara a motivação para seus crimes. MUITO BOM
A Casa de Mapuhi (THe House of Mapuhi, 1909): peroleiro do Taiti, Mapuhi encontra uma pérola rara, valiosíssima. Pretende vendê-la e, por exigência da família, com o dinheiro construir uma casa segura porque moram numa área sujeita a intempéries, vendavais e inundações. Mas as coisas não correm como haviam planejado e, para piorar, na sequência ocorre um furacão devastador. Muitos habitantes morrem afogados, mas Mapuhi, a mulher e a filha sobrevivem. A mãe dele, porém, não é encontrada viva ou morta. Dias depois, numa noite, um fantasma faz uma surpreendente visita à família. ÓTIMO
A História de Keesh (The Story of Kessh, 1907): forte e corajoso rapaz de 13 anos, filho de um grande caçador que morreu pela aldeia, acha injusto que viúvas e idosas recebam menos carne de caça que os demais. Desprezado, passa a caçar sozinho e a todos surpreende com seu sucesso. Espiões são colocados em seu encalço para observá-lo, mas relatam que ele provavelmente se vale de magia para matar ursos sem se ferir. A aldeia fica sabendo depois, pelo próprio Keesh, que em vez de feitiçaria de feiticeira ele se vale de feitiçaria de cabeça. O que seria isso? ÓTIMO
A Inteligência de Porportuk (The Wit of Porportuk, 1906): Klakee-Nah, chefe gastador, deve muito dinheiro ao idoso Porportuk. Mas este cancelará a dívida se a bela e prendada El-Soo se casar com ele. Pai e filha ficam ofendidos, não haverá negócio. A dívida permanece após a morte do chefe, mas El-Soo diz que um dia pagará tudo. Seu plano: oferecer-se em leilão público e se casar com o dono do maior lance. A aldeia se enche de homens dali e de fora e após vários lances é justamente Porportuk quem acaba arrebatando a moça. Cria-se então uma enorme confusão, que só irá terminar bem mais tarde, muito longe da aldeia. MUITO BOM
O Mexicano (The Mexican, 1911): simpatizantes da revolução mexicana em Los Angeles labutam pela causa. Um dia, no escritório da junta de recrutamento surge um jovem, Filipe Rivera, dizendo querer ajudar. Desconfiados de que possa ser um espião do presidente Diaz, não lhe dão o devido respeito, mas mesmo assim aceitam seus serviços gratuitos. Em várias ocasiões Rivera também contribuirá com dinheiro, que os militantes desconhecem a origem. Um dia, quando a junta precisa de muitos dólares para comprar rifles e despachar para os revolucionários, Rivera decide provar que verdadeira e literalmente lutava pela revolução. MUITO BOM
As Pérolas de Parlay (The Pearls of Parlay, 1911): meio enlouquecido por uma tragédia familiar o velho aventureiro francês Parlay, rico habitante do atol Hikihoho, no Pacífico, passou a colecionar pérolas, tornando-se dono de uma fortuna. Perto do fim, promove um leilão para vendê-las. Mas antes ocorre um infernal furacão que destrói não apenas as construções do atol, também causa o naufrágio e a destruição de escunas, estragos em barcos e navios e a morte de muita gente. O conto é muito mais sobre a fúria da natureza do que exatamente sobre as pérolas de Parlay. REGULAR
Para o Homem na Trilha (To the Man on the Trial, 1899): na véspera do Natal, um estranho fortemente armado, Jack Westondale, interrompe uma pequena comemoração de um grupo de garimpeiros. Entre os quais está Kid Malemute, que já ouviu falar dele. O homem diz que persegue três bandidos que teriam roubados seus cães. Dão-lhe abrigo e comida e depois de algumas horas ele parte. Logo em seguida aparecem na cabana homens da polícia montada dizendo estar na captura de Westondale, que teria praticado um assalto. Mas os garimpeiros hesitam em ajudar os agentes a alcançá-lo. Kid Malemute mais ainda. BOM
O Pagão (The Heathen, 1910): Charley, o narrador, e Otto, nativo de Bora Bora, são os únicos sobreviventes de um naufrágio após violento furacão. Tornam-se grandes amigos, verdadeiros irmãos de sangue, irão conviver durante muitos anos. O pagão é Otoo, o único não-cristão de sua ilha, que, no entanto, é um ser amigo, bondoso e honesto como poucos, o que o torna admirável para o próprio narrador. Vivem muitas aventuras juntos, Otoo mais cuidando de Charley do que este dele, dando-lhe excelentes conselhos e ajudando-o nos negócios. Mas um dia tudo isso acaba, num final absorvente e comovente. ÓTIMO