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    Budapeste - (edição econômica)

    Chico Buarque

    Companhia das Letras
    2011
    113 páginas
    3h 46m
    ISBN-13: 9788535919769
    Português Brasileiro
    3.8
    7346 avaliações
    Leram13623Lendo322Querem3781Relendo24Abandonos402Resenhas418
    Favoritos25Desejados3781Avaliaram7346

    Ao concluir a autobiografia romanceada "O ginógrafo", a pedido de um bizarro executivo alemão que fez carreira no Rio de Janeiro, José Costa, um ghost-writer de talento fora do comum, se vê diante de um impasse criativo e existencial. Escriba exímio, "gênio", nas palavras do sócio, que o explora na "agência cultural" que dividem em Copacabana, Costa, meio sem querer, de mera escrita sob encomenda passa a praticar "alta literatura". Também meio sem querer vai parar em Budapeste, onde buscará a redenção no idioma húngaro, "segundo as más línguas, a única língua que o diabo respeita". Narrado em primeira pessoa, combinando alta densidade com um senso de humor muito particular, "Budapeste" é a história de um homem exaurido por seu próprio talento, que se vê emparedado entre duas cidades, duas mulheres, dois livros, duas línguas e uma série de outros pares simétricos que conferem ao texto o caráter de espelhamento que permeia todo o romance. "Budapeste" ganhou o prêmio Jabuti de melhor livro de 2003 e o IV prêmio Passo Fundo Zaffari e Bourbon de Literatura, em 2005.

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    Jim do Pango picture
    Jim do Pango25/07/2010Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    A pesquisa, a verve e o gênio

    Fui dar em Budapeste graças a um pouso imprevisto em O Leite Derramado. Havia sido bastante rigoroso na seleção das próximas leituras, pois o meu relacionamento com os livros começa muito antes do abrir da primeira página, mas eis que o último dos quatro romances do Chico Buarque me chegou às mãos e foi lido com energia. Os poucos dias (os livros do Chico parecem ter esse defeito em comum: são curtos demais) que passei na companhia de O Leito Derramado foram suficientes para que eu decidisse que deveria ler os outros romances. Comecei por Budapeste e agora já lamento profundamente que só restem mais dois. Budapeste é um raro encontro do conhecimento, da pesquisa e do gênio. Consta que Chico Buarque jamais esteve na Hungria antes de escrever o livro e que suas personagens e os nomes das ruas foram escolhidos em homenagem à seleção húngara de 1954, que encantou o mundo liderada por Ferenc Puskas. Não obstante, as descrições da capital magiar são precisas e não perdem a cor nem mesmo quando comparadas com as descrições do Rio de Janeiro, cidade tão familiar ao autor, que também compõe o cenário do livro. O protagonista é um escritor anônimo, um “ghost-writer”: escritor fantasma que é comumente definido como o profissional especializado em prestar serviços de redação de textos àqueles porventura destituídos de tempo ou carentes de verve. Ou ambos. De alguma forma o idioma magiar escolhe José Costa lhe representando, senão como uma obsessão, ao menos como um desafio. Ao mesmo tempo a narrativa em português é marcada por construções precisas próprias da pena de Chico Buarque. O autor demonstra sua inventividade criando idas e vindas na narrativa em sutilezas permitidas apenas a quem possui grande intimidade com a língua portuguesa. Em alguns pontos as trocas constantes de cenário e de disposição do protagonista me remeteram à “Construção”, a bela canção em que o Chico ousou: brincou com o português como se fosse fácil. José Costa é o protagonista coadjuvante. É ele quem escreve, mas são outros que assinam. O tema mil vezes sutil, desperta, de pronto, a simpatia por José Costa, porquanto, em certa medida, todos nós vivemos a preparar um palco onde outros irão brilhar. É comum outras pessoas receberem os louros por um trabalho duro que nós realizamos e, por isso, o leitor julga saber como se sente José Costa quando outros assinam e se apropriam de sua esmerada produção literária. O Duro é que o tal José parece não possuir a menor vaidade. Desta forma, à medida que as páginas foram avançando a simpatia inicial foi dando lugar a certa repulsa por esse anti-herói, que sempre toma as piores decisões possíveis e age atabalhoadamente em todas as situações. Ele, José, naturalmente, vai dar em Budapeste, terra de um conhecido autor anônimo, se é que isso é possível. Em verdade, deveria dizer que Budapeste é terra de uma famosa obra de um escritor anônimo, porém os húngaros acreditaram que deveriam erigir uma estátua para o desconhecido escritor de “Gesta Hungarorum”, um importante tratado da história ancestral do país. Assim, os húngaros tornaram conhecido o escritor anônimo. Lá, em Budapeste, José se torna Zsoze Kósta e conhecendo Kriska começa a esquecer a Wanda. Não sei se foi pela confusão mental, se foi pelas idas e vindas do Rio a Budapeste, mas o José Costa, “Mutatis mutandis”, me pareceu tão infeliz e tão perdido quanto o Eulálio D’Assumpção de O Leite Derramado. A Wanda é que pareceu não ser nenhuma Matilde e o quem leu os dois livros vai saber exatamente do que eu estou falando. Por ora, dificilmente alguém me demoverá de uma conclusão: Budapeste é um romance sobre a palavra. A incursão no hermético idioma magiar nada mais é senão uma ode à língua portuguesa. E quanto mais o Zsoze Kósta se aprimora em húngaro, mais ele aprecia dizer coisas como marimbondo, pão de açúcar e adstringência. Como nem tudo são flores, do meio para o fim Budapeste por pouco não emudece. A apatia e o declínio moral do protagonista parecem ser oferecer ao contágio. Com tudo na balança, cheguei a pensar que apenas um truque de mágica, um desfecho brilhante tirado da cartola poderia salvar a reputação do livro apesar de toda a pesquisa, apesar de todo o talento, apesar de a toda verve de Chico Buarque. Então, eis que surge o gênio do escritor e confesso que, estupefato, ainda estou refletindo sobre os acontecimentos do fim do livro. Em português me faltam as palavras certas para descrever. Certamente elas devem existir em um idioma qualquer: em húngaro, porque não? Infelizmente, não aprendi tão bem o húngaro quando o Zsoze Kósta. Tampouco posso contar com os trabalhos do José Costa para escrever em meu lugar. Com isso, tudo que posso dizer é que tive um feliz encontro com Budapeste.

    105 curtidas

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