“Tome nota, meu velho, mais dez casos como esse e peço demissão... porque seria a prova de que lá no alto existe um tal de bom Deus se encarregando de fazer o trabalho da polícia...”
Esse foi o comentário bem-humorado do comissário Jules Maigret a respeito desse curioso caso do “Enforcado de Saint-Pholien”. E de fato, mais do que nunca, aqui vemos Maigret perambular de uma cena para outra do intenso drama humano, mais como uma testemunha que como propriamente um investigador... O comissário quase não faz nada durante toda a história, além de se postar, sólido e imóvel como uma muralha humana, no palco de inexplicáveis acontecimentos, que gradualmente vão se preenchendo de sentido para o leitor.
A única exceção na passividade de nosso querido detetive é notável: inadvertidamente, ele provoca o suicídio de um pobre coitado, ainda no primeiro capítulo da história, e é essa ação que desenrola toda a tragédia subsequente.
É marcante como Simenon atrela a dramaticidade aos cenários, que ele descreve como ninguém. Neste livro senti isso nitidamente, quando afinal chegamos a Saint-Pholien, “onde reinava um cheiro enjoativo de pobreza (...), enquanto meninos brincavam nas soleiras das portas, atrás das quais a vida fervilhava.”
Cada romance de Simenon é um pedacinho pulsante de vida. Magistral!