Morcego em Paris reúne 80 crônicas do jornalista Carlos Rafael Guimaraens (1926 – 1987), publicadas entre 1966 e 1987 nos jornais Correio do Povo e Folha da Tarde.
Morcego em Paris -
Carlos Rafael Guimaraens
Um morcego a ser conhecido
Que boa surpresa esse Carlos Rafael Guimaraens. Quer dizer, ele não é um cronista novo – ele sequer está vivo. Mas não parece ser muito conhecido fora de Porto Alegre, onde trabalhou como jornalista e escreveu suas crônicas. Não há sequer um verbete no Wikipedia sobre ele. E, vejam que coisa, apesar disso, trata-se de um cronista magistral. Mas não se espere encontrar nele a melancolia de um Rubem Braga, o humor de um Fernando Sabino, a ternura de um Antônio Maria. No máximo, é possível fazer paralelos com o Otto Lara Resende e o seu único livro de crônicas, o tardio e belo “Bom dia para nascer”. A exemplo do Otto, Carlos Rafael Guimaraens escreve textos muito mais cultos do que geralmente se espera para uma crônica de jornal, e que, justamente por isso, causam uma certa estranheza de início, o que é bastante amenizado durante a leitura. Por fim, termina-se com a sensação de termos tido uma grande conversa com alguém que tinha realmente muito a dizer. De início, as crônicas são relatos de viagens na Europa, repletas de referências históricas e com um singular senso de observação. Em seguida vem o capítulo “Artes e humanidades”, talvez o mais saboroso do livro. É também quando se percebe que Carlos usa de fato o espaço de jornal – não se trata de um suporte eventual. Seus textos dialogam entre si, dentro da construção do jornal. E o cronista recheia esses textos com discussões bastante proveitosas, muitas vezes associando algum acontecimento contemporâneo a algo que tira de sua enorme bagagem cultural, literária, histórica, ou até da tradição oral. A ironia também é um bom ingrediente, e que possivelmente passa despercebida em muitos casos. No capítulo “Zoologia fantástica”, por outro lado, seria impossível aceitar uma interpretação dos textos sem considerar o uso da ironia. Ela está afiada, mas também aí o que sobressai é o conhecimento do cronista e sua capacidade de associar referências. Dá gosto de ler, e dá vontade de ler o que ele cita. Também há um capítulo chamado “Crônicas do cotidiano”, título que pode enganar muito desavisado, pois não há em seu conteúdo nada que o aproxime dos temas miúdos do dia-a-dia. São crônicas bastante relacionadas a notícias acompanhadas pelo autor, muitas delas chegando até o campo político. Vivia-se, inclusive, a época da Constituinte, o que faz imaginar o que Carlos escreveria em tempos como esses, quando a palavra voltou à moda. E a todas essas crônicas do cotidiano o autor soma as características já observadas nos capítulos anteriores. Ao final, algumas crônicas que estão mais para ensaio dissecam com propriedade Cervantes e seu tempo, sua sociedade, seu Dom Quixote e a América que nunca chegou a conhecer. Certamente não é um cronista com apelo popular. Mas é alguém com quem vale a pena passar algumas horas.
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