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    Livro das Donas e Donzelas -

    Júlia Lopes de Almeida

    Francisco Alves
    1908
    198 páginas
    6h 36m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro
    3.8
    23 avaliações
    Leram28Lendo2Querem31Relendo0Abandonos1Resenhas6
    Favoritos1Desejados31Avaliaram23

    O "Livro das Donas e Donzelas", de autoria da escritora Júlia Lopes de Almeida (publicado em 1906) é um apanhado de crônicas que traz mulheres como personagens principais das histórias. Um exemplo é o conto "Convento", que conta a vida e os costumes de freiras que passam suas vidas para servir à religião.

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    Henrique Luiz Fendrich13/01/2023Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Júlia Lopes de Almeida e a crônica feminina

    A menos que outro venha a ser descoberto, o primeiro livro de crônicas escrito por uma mulher brasileira é o “Livro das donas e donzelas”, publicado por Júlia Lopes de Almeida em 1906. A autoria não impressiona, pois Júlia foi realmente uma pioneira de diferentes maneiras na literatura brasileira, e teria sido uma das fundadoras da própria Academia Brasileira de Letras, se o preconceito dos homens não fizesse com que o seu nome fosse excluído de última hora, para dar lugar a outro homem – o marido de Júlia. Em 1906, os livros de crônicas não eram tão comuns assim – basta dizer que o próprio Machado de Assis só teve as suas crônicas reunidas em livro postumamente, em 1914. Bilac já havia lançado dois, Coelho Neto outro dois, e João do Rio lançara há pouco o seu “As religiões no Rio”, mas, fora esses, não havia muitos mais, e vários dos livros de crônicas de então eram sisudos, focados em política, em assuntos de tribuna, em vultos históricos, ou, no mínimo, estavam vinculados ao espírito noticioso do jornal. Ao lançar o seu livro, Júlia tinha outra proposta, a de focar no que poderia ser chamado de “feminino” – e o título do seu livro não deixa dúvidas sobre a temática e o público que a autora tinha em mente ao escrever as suas crônicas. E o interessante é que ela não apenas fala em assuntos que poderiam ser do interesse das mulheres da época, mas inclusive problematiza, em uma crônica específica, a situação da mulher brasileira, que, se não é das melhores nos dias de hoje, era certamente ainda pior em 1906. A certa altura, ela diz: “Apesar da antipatia do homem pela mulher intelectual, que ele agride e ridiculariza, a brasileira de hoje procura enriquecer a sua inteligência frequentando cursos que lhe ilustrem o espírito e lhe proporcionem um escudo para a vida, tão sujeita a mutabilidades”. Um depoimento do qual, hoje, bem pouca gente teria coragem de discordar, e que pode também ser aplicado à malsucedida investida de Júlia na ABL (ela, ressalte-se, não deixava de reverenciar Machado, que presidiu a ABL). É possível fazer algumas aproximações entre as ideias de Júlia Lopes de Almeida nessas crônicas e o feminismo, desde que não caiamos no pecado do anacronismo. Há até duas situações em que cita diretamente o feminismo, e uma delas era para dizer que, “seja qual for a guerra que lhe façam, o feminismo vencerá, porque não nasceu da vaidade, mas da necessidade que obriga a triunfar”, mas mesmo então é preciso refletir sobre o que Júlia chamava exatamente de feminismo e como isso se diferencia do conceito mais atual. O feminismo de Júlia, ao menos o de 1906, e o que se pode inferir a partir da leitura das suas crônicas, é muito mais voltado a uma noção de igualdade de oportunidades entre os gêneros, o que, claro, não apenas é justo como é extremamente necessário. Hoje, porém, tal noção seria insuficiente, se as estruturas do patriarcado forem mantidas. Júlia não chega a problematizar a dimensão social, e muito menos a racial, na sua visão sobre o feminismo, mas essas dimensões só seriam ressaltadas no movimento bem mais tarde. Assim, não se pode deixar de reconhecer que aquilo que escreveu a favor das mulheres permanece válido, ainda mais sabendo que há visões tão obscurantistas sobre a mulher por aí que mesmo as obviedades precisam ser proclamadas. Leia-se a crônica “Brutos!”, por exemplo, em que é preciso dizer que o homem não deve levantar a mão contra a mulher, e onde também se percebe que nem as rainhas são imunes ao mal da violência doméstica, que ainda hoje, mais de 100 anos depois, é uma triste realidade na sociedade. Júlia demonstra um espírito independente em suas crônicas, de modo que nem mesmo sua profecia sobre a vitória do feminismo a impede de, em outro momento – na primeira menção direta ao movimento – criticar o fato de algumas mulheres terem passado a usar as mesmas roupas que os homens. Nesse ponto, o tempo daria razão à Júlia, que, mesmo sem ter a noção de patriarcado, parece ter intuído que qualquer tipo de igualdade que se pretendesse entre homens e mulheres não poderia ser igual a uma imitação dos homens. Mas, apesar de momentos de justa indignação, não se deve esperar dessas crônicas que sejam altamente combativas. Elas têm, sempre, o ponto de vista da autora, mas são escritas em um tom leve e ameno, como o que se convencionou esperar da crônica. É curioso observar que algumas estratégias de Júlia são as mesmas que os cronistas do período clássico usariam, e que são usadas até hoje, como buscar um assunto no noticiário, dar um tratamento lírico a um evento cotidiano, promover ligeiras reflexões filosóficas… Com proposta voltada ao público feminino, as crônicas de Júlia abordam temas que, ao menos em 1906, acreditava-se que poderiam interessar apenas a elas. Isso inclui leituras sobre educação e higiene, a arte culinária, técnicas para disfarçar a passagem do tempo, as formalidades sociais, as aflições de mãe, as árvores, as flores e as plantas. Em uma crônica marcante, “Convento”, ela defende que a mulher pode ser útil e religiosa sem fugir da sociedade. Em outra, se comove com a velhinha que decidiu aprender a ler. Duas interessantes crônicas tratam-se do papel do lenço e do beijo na sociedade, sendo de se notar que a maneira com que ela esmiúça esses temas guarda bastante semelhança com o que fariam os cronistas bem depois dela, sempre atentos para captar em pequenos gestos do cotidiano verdades talvez maiores. Também são obras de destaque as crônicas “Harmonia” e “O último sonho da rainha”, porque nelas a autora parte do noticiário e faz belas reflexões filosóficas e existenciais, que calhariam ao gosto do leitor moderno. Há aqui e ali opiniões que provavelmente não desceriam tão bem a esse leitor moderno, o que é natural em um livro de ideias tão antigo. A impressão que fica, porém, é que, se o que Júlia fez nesse livro é a “crônica feminina”, como pretendia, então foi esse tipo de crônica que venceu, porque há um nítido parentesco com o estilo clássico da crônica, a qual foge sempre que pode dos assuntos ditos sérios e da sisudez dos especialistas, isto é, dos muitos homens que faziam crônica no tempo de Júlia e que já estão esquecidos. Se o livro é para donas e donzelas, tornemo-nos todos então uma coisa ou outra.

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    Júlia Valentim da Silveira Lopes de Almeida

    Contista, romancista, cronista, teatróloga, palestrante e abolicionista brasileira, uma das idealizadoras da ABL (ainda que seu nome tenha sido "apagado"). Com grande e importante produção literária, participou ativamente de sociedades femininas de sua época.

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    Rio de Janeiro, Brasil

    Júlia Valentim da Silveira Lopes de Almeida