Potencial destruído
Uma das partes mais frustrantes de se estudar a História Política no Pará é ver o quanto que a trajetória de figuras individuais pode ser negligenciada pelos historiadores, tanto pela priorização de temas de História Social quanto pelo esquecimento/simplificação da história oficial. Dentre vários políticos, famílias tradicionais (as quais ainda são salvaguardadas com os estudos de genealogia), cientistas, professores e intelectuais, quem sofre ainda mais com essa ausência são figuras que poderiam ser exemplares à história de nosso povo, e ninguém encarna isso melhor do que a história do advogado e deputado estadual João Batista. Militante do PSB, João Batista tem uma trajetória parecida com a de outro mártir, Paulo Fontelles: se tornou notório primeiro como líder estudantil (Paulo na UFPA e João no antigo CESEP, hoje UNAMA) e, depois de formado, como defensor dos camponeses e trabalhadores sem-terra. Tal militância lhe rendeu diversas ameaças de morte e ataques até o atentado que tirou sua vida em fins de 88, quando fora assassinado, na frente de casa, por um pistoleiro a mando de latifundiários. É essa história - a do político, a da luta da terra e o pós, o "aftermath" - que o irmão do biografado, Pedro César Batista, tenta contar nesta biografia. Infelizmente, não acredito em recomendar uma leitura apenas por ser "necessária". Apesar da ficha catalográfica afirmar que é uma biografia, ela na verdade ocupa somente a 1ª das 3 seções do livro - as outras duas são dedicadas a entender a questão da terra no Pará e a mostrar o que aconteceu depois da morte de João Batista. Por si só, já achei uma divisão um tanto estranha, pois normalmente uma seção como a 2ª, que é contextual, viria antes da biografia em si, ou, como faz (brilhantemente) Carlo Ginzburg em "O Queijo e os Vermes", mistura o contexto com a vida do biografado à medida que as dúvidas vão surgindo. Infelizmente, a divisão rígida faz parecer que os temas estão jogados e que o autor simplesmente quis fazer uma digressão a qual não tinha um revisor para tentar controlar. Para piorar ainda mais a situação, mesmo analisadas isoladamente, todas as 3 seções são fracas. A 1ª seção, que conta efetivamente a história de luta de João Batista, acaba sendo muito acelerada, e a linguagem superficial faz parecer às vezes que estamos lendo um perfil biográfico - ou pior, um livro de memórias não-assumido, já que diversas vezes o autor se insere sem mais nem menos no meio do fluxo da narrativa - do que uma biografia de fato. Portanto, a força de muitos fatos e processos históricos que o nosso homem participou acaba sendo muito esvaziada. A 2ª seção, a que se propõe a explicar o problema da terra no Estado do Pará, não tem nem inovações teóricas ou metodológicas que justifiquem a escrita, e nem uma clareza de escrita que permita usar esse trecho como uma introdução a um tema ainda tão caro à Amazônia. No fim, acaba sobrando para a 3ª seção, que confesso que é a que está menos clara na memória - essencialmente ela tenta entender os desdobramentos do assassinato de João Batista e expõe o prolongamento das injustiças que ele sofreu, já que somente os assassinos diretos (malmente) foram punidos. Mas há também espaço para (talvez) o maior gesto de homenagem a João Batista, que foi uso de seu nome para o acampamento do MST na cidade de Castanhal. No geral, como um estudioso marxista e envolvido em discussões como a questão da terra, a validade (ou não) da luta parlamentar e a teoria de justiça, é chato informar que este livro não faz jus à memória e à força da história de João Batista, ainda (lamentavelmente) tão atual no Brasil. Mas é necessário compreender que a qualidade historiográfica, a insistência e a criatividade no resgate da memória são escolhas políticas. Já é esperado que uma figura contestadora como João Batista não apareça ou só tenha breves menções nos anais da história oficial, mas é verdadeiramente decepcionante constatar que todas as pessoas que foram próximas de João Batista, por terem traído seus ideais, não fazem muita questão de lembrá-lo (de forma visceral, insistente, incômoda) pois seria uma lembrança de sua própria situação atual - pra citar apenas alguns nomes, Arnaldo Jordy, antigo líder estudantil e militante do PCB hoje convertido em insosso parlamentar; Sandra Batista, última esposa de João, que criou uma carreira política a partir da memória do cônjuge e hoje é aliada de Helder Barbalho; o PSB, que se converteu ao social-liberalismo, que hoje mal discute reforma agrária; e... o próprio Pedro César, que não entregou uma narrativa acessível, de fácil popularização nas escolas e na população em geral, e nem uma obra academicamente profunda, que agregue aos debates que João tanto se engajou em vida. No geral, parece uma obra feita para bater ponto, e se não contribui para distorções de sua figura, tampouco ajuda a relembrar uma figura que, a cada dia mais, cai no esquecimento. E na luta contra a memória dominante, não há espaço para o ordinário, para o medíocre. Quando se trabalha com figuras "malditas" ou inconvenientes à memória atual, é preciso não só qualidade, mas também consistência de divulgação e honestidade intelectual - aplicar tudo aquilo que a gente sabe que ajuda a perpetuar uma memória se trata de uma escolha política. Resta saber se, na batalha pela relembrança, seremos Carlo Ginzburg ou Pedro César Batista. *O livro, da Expressão Popular, se trata de uma 2ª edição, expandida e revisada, de um folheto já esgotado sobre a vida de João Batista, mas este livro também se encontra esgotado. Contém breve apresentação e agradecimentos iniciais.
