A Rosa Branca Rebelde é o primeiro romance da historiadora escocesa Janet Paisley. Publicado aqui no Brasil pela Editora Rai, o livro é uma novelização da vida de Anne Farqhuarson, uma mulher das terras altas que liderou os homens de seu clã na segunda revolta jacobita. Uma história sobre força, poder e a busca por liberdade.
Anne tinha apenas 12 anos quando o pai morreu, mas lembra-se bem das últimas palavras dele: prosperidade e contra a União! Como um bom jacobita, seu pai buscava a liberdade da Escócia do aperto inglês trazido pela União, a liberdade para viverem suas vidas de acordo com o sistema dos clãs, que só seria assegurada com a restauração dos Stuart ao trono.
Anos depois, já adulta, Anne ainda se apega ao desejo do pai de lutarem pela liberdade do seu país e dos seus clãs. Por isso, quando o príncipe chega a Escócia e o levante se torna inevitável, ela vai contra a opinião do próprio marido, chefe do clã Chattan, e reuni os homens do clã para apresentar seu apoio ao príncipe.
Pelos meses que se seguem, Anne se torna uma figura importante no levante, ao lado de outras mulheres, ajudando com os planos de guerra e a tomada de cidades como Edinburgo. O que acaba lhe rendendo o apelido de Coronel Anne - mesmo que, por ser mulher, ela não tivesse realmente honras militares.
"- Nossas vidas - afirmou. - e escolhemos como vamos vivê-la ou perdê-la."
Embora a História já dê bastante spoiler do desfecho do levante jacobita - que não foi nada feliz - achei bastante relevante conhecer uma figura histórica tão pouco mencionada. Quando achei A Rosa Branca Rebelde no sebo da cidade fiquei bem chocada por nunca ter lido nada a respeito de Anne Farqhuarson - especialmente depois da espiral pela qual desci após ler A Libélula no Âmbar, meu primeiro contato com a revolta jacobita.
Anne foi uma figura real, ao redor da qual criou-se todo um mito na época. As mulheres das terras altas não eram como as inglesas, submissas e caladas. Elas tinham opinião, direito a terras, ao próprio nome, ao divorcio e a liberdade de decidirem sobre o próprio corpo. As mulheres das terras altas eram "selvagens", como seus homens, aos olhos dos ingleses, simplesmente porque tinham voz. E Anne nunca deixou calarem a sua - mesmo quando foi presa.
Muito do que Janet Paisley usou em A Rosa Branca Rebelde tem respaldo nas minhas pesquisas pela internet a respeito de Anne e fiquei feliz com a forma como ela descreveu Anne: uma mulher forte, determinada, teimosa, que lutava não por um príncipe ou pelo catolicismo, mas pelo seu modo de vida, pela liberdade dos clãs e pelo direito de não ser sufocada por uma sociedade conservadora e pudica que relegava mulheres a terceiro plano.
"Nossos ancestrais puseram a liberdade acima da vida, de Deus, do rei. Os homens que nos venderam a União os desonraram. Mas, se escolhermos permanecer escravos, a vergonha será nossa."
Ainda assim, Anne era uma mulher apaixonada, com o coração dividido entre Alexander, o jovem chefe do clã MacGillivray, e seu marido, Aeneas McIntoch - que calha de ser mentor de Alexander. De um lado, um homem pronto para lutar pela liberdade do seu povo custe o que custar. Idealista, apaixonado, amoroso e pronto para segui-la para onde quer que ela fosse. Do outro, um homem pragmático, cauteloso, colocando o bem-estar e a segurança do próprio clã acima de qualquer desejo pessoal.
A forma como a autora constrói a história, mostrando os encontros e desencontros entre Anne e Aeneas, a forma como eles discordam da melhor maneira de lidar com o levante e garantir a segurança do próprio povo, as traições e o desejo intrínseco em cada um foi muito bem feita. Assim como a maneira com a qual fez crescer o relacionamento entre Alexander e Anne e as descobertas que fazem a respeito um do outro no campo de batalha.
A Rosa Branca Rebelde me deixou desolada, e não foi uma só vez. Sabendo do desfecho do levante em Culloden, quanto mais eu conhecia esses personagens, mais me doía vê-los partindo para as batalhas. Mais me doía a esperança deles. E eu definitivamente não estava pronta para o que veio após o campo de Culloden.
"Anne esperou a esperança morrer nele. Ela teria arrancado essa coisa nela se pudesse, se soubesse o que era e como acabar com ela. O amor que Anne sentia por MacGillivray era alegre, imaculado, sem nenhuma das correntes incompreensíveis que a levavam para Aeneas. Ele não merecia a dor que ela lhe causava."
Chorei muito mais do que estava esperando e terminei a leitura com uma baita ressaca. Embora a narrativa de Janet Paisley seja direta, pragmática e sem muitas emoções, ela conseguiu me conectar a visão de mundo e aos ideias dos personagens de uma forma que muitos autores não conseguem.
Ainda assim, senti falta de uma dramatização maior em torno da história toda - principalmente do romance. A autora foi bastante contida na forma de contar e mostrar os romances, as traições e as batalhas. Ainda que seja um livro grande, muitas partes pareceram bem rápidas. Uma vez que estamos falando de uma guerra e com os pontos de vista que ela incluiu na história - após o levante acompanhamos partes pelo ponto de vista de Anne, Aeneas e o duque de Cumberland, o príncipe William. Podia ter sido um livro bem maior.
"A Liberdade era uma ideia, e não poderia ser destruída."
Mesmo assim, Janet Paisley conseguiu converter muita emoção e paixão em A Rosa Branca Rebelde, o que foi suficiente para fazer com que eu me apaixonasse, desgraçasse a minha cabeça e me jogasse em um ressaca que me faz querer chorar só de lembrar dos personagens - e aflorou aquela raivinha dos ingleses que surgiu com Outlander.
De muitas formas, A Rosa Branca Rebelde me lembrou Spartacus. A luta pela liberdade, a queda, os personagens inesquecíveis que foram reais, que lutaram e morreram e tiveram esperança. Mais do que recomendo!